Luciana Genro

Em entrevista à Folha, Luciana Genro defende mudança do modelo econômico

12 de setembro de 2014 19h56

Por Redação #Equipe50

lg Em entrevista concedida na tarde desta sexta-feira (12) à Folha de São Paulo e transmitida ao vivo na internet, a candidata do PSOL à Presidência da República, Luciana Genro, defendeu uma mudança no modelo econômico do país e afirmou que os ataques de Dilma Rousseff à política defendida por Marina Silva lembram a brincadeira do sujo falando do mal lavado, já que ambas participaram por sete anos de um governo que praticou uma das mais altas taxas de juros do mundo.

“A Marina, que é contra o casamento civil igualitário, é a favor do casamento de papel passado com os bancos, enquanto a Dilma defende a união estável com o sistema financeiro”, disse a presidenciável, referindo-se à gestão da economia de Dilma, que já beneficia o sistema financeiro na prática.

Questionada sobre medidas que propõe para mudar a política econômica do país, Luciana citou o seu projeto de promover uma auditoria da dívida pública, para corrigir abusos e reduzir o endividamento. “Esse processo de endividamento do Brasil e da América Latina se deu de uma forma absurda, com taxa de juros flutuante. O Brasil contraiu empréstimos a juros baixos que, depois, dispararam. É preciso auditar”, ponderou ela. Mais tarde, voltando ao tema da dívida, ela criticou a política de superávit primário para pagamento de juros da dívida, o que tira recursos de áreas essenciais para sustentar as famílias mais ricas.

Ainda na área econômica, os jornalistas perguntaram a Luciana qual a proposta do PSOL para baixar a inflação sem elevar a taxa de juros. “Esse modelo de controle da inflação via taxa de juros não é natural da economia; foi implantado a partir de 1999, por exigência do FMI”, respondeu a candidata. “Se a gente analisar a inflação dos últimos 20 anos, 39% foi resultado dos preços reajustados pelo governo, como energia, planos de saúde, telefonia, mensalidade escolar”, completou. Ela propôs uma intervenção efetiva do governo nesses setores estratégicos, que não podem ter os rumos definidos pela iniciativa privada e precisam ter a política de preços a serviço da população e não do lucro.

Veja algumas propostas de Luciana sobre outras áreas, em resposta a perguntas dos jornalistas e de internautas:

Como garantir a sustentabilidade da previdência

“A previdência não pode ser vista como algo isolado, ela faz parte de um sistema maior chamado seguridade, e a seguridade é superavitária. Mas ela sofre um desfalque de 20% através da DRU (Desvinculação das Receitas da União), que destina o valor para o superávit primário. Nós não entendemos assim e queremos ver a seguridade como um todo”, disse a candidata.

Mudanças na estrutura tributária

“O pobre paga muito imposto, a maioria dos impostos são pagos por pessoas que ganham até três salários mínimos”, disse Luciana, que em seguida propôs rever políticas que beneficiam os mais ricos: “O governo isentou de impostos um conjunto de operações como distribuição de lucros, remessas de lucros sobre capital próprio, operações de estrangeiros na Bolsa”.

Imposto sobre as grandes fortunas

“Seria um imposto a mais, que teria como objetivo desconcentrar riqueza. Hoje, há muita riqueza nas mãos de muito pouca gente. Quero diminuir a tributação sobre o salário e sobre o consumo, que são injustas e fazem com que quem ganha salário mínimo e quem tem patrimônio de R$ 50 milhões paguem o mesmo imposto sobre o leite, por exemplo”, ponderou a candidata.

Democratização da mídia

“O Estado não tem que controlar a mídia. O problema é que, hoje, a liberdade de imprensa se resume aos donos de empresas veicularem o que eles acham que deve ser publicado. A prova disso é a cobertura eleitoral. A própria Folha cobre apenas os três candidatos que aparecem à frente nas pesquisas, o que leva as pessoas a acreditarem que só três candidatos importam ou que só há três candidatos. Eu não vejo isso como democrático”, afirmou a presidenciável.

Luciana também propôs medidas para corrigir as distorções existentes na concentração de poder midiático e disse que pretende democratizar o setor “impedindo que uma única família controle vários veículos, impedindo que laranjas assumam concessões em nome de políticos, como acontece com a televisão; e o fundamental que eu vejo é que o conjunto das diferentes pluralidades politico-ideológicas possa ter espaço na mídia, o que hoje não acontece”.

Controle do Estado sobre a economia

“Setores estratégicos da economia não deveriam estar em mãos privadas. Isso não dá para fazer da noite para o dia, mas temos arcabouços legais para permitir, como auditorias nos processos de privatização. Eu buscaria brechas legais onde possível e onde necessário”, afirmou a candidata, acrescentando que concessionárias que não cumpram suas obrigações na prestação do serviço devem ter a concessão cassada.

Sobre ser chamada de candidata radical

Questionada se suas propostas não seriam populistas, Luciana respondeu: “Eu não tenho nenhum problema em ser chamada de populista se tu entender que ser populista é defender os interesses do povo”.

Em seguida, ao ser questionada se se considera radical, a presidenciável do PSOL respondeu: “Sou radical, no sentido de que defendo mudanças nos problemas pela raiz, ir à raiz dos problemas. Radical no sentido de ser intransigente, de não saber dialogar, não me considero. Ser radical é querer ir à raiz e não se contentar com paliativos. Hoje, programas sociais distribuem a borda do bolo, mas o recheio continua concentrado. Quinze famílias concentram riqueza equivalente a 10 vezes o que o Brasil gasta em um ano com Bolsa Família. É nesse sentido que sou radical: quero mudar o modelo econômico estruturalmente e não apenas distribuir as bordas com paliativos”.

Escândalos de corrupção envolvendo empresas estatais

“Se tu acha que o problema do Estado se resolve extinguindo as estatais, eu te diria que o problema da corrupção se resolve extinguindo as empreiteiras. As empresas que financiam a Marina, a Dilma e o Aécio são as mesmas que estão nos escândalos de corrupção” disse a Luciana.

Em seguida, ela comentou outra dimensão do problema da corrupção: “Há uma partidarização da máquina pública. Não basta ser estatal; é preciso ser público, no sentido de não haver loteamento da máquina pública”, disse a presidenciável, propondo uma ruptura com essa política de balcão de negócios com partidos e empresas em troca de dinheiro e apoio político.

A construção da nova governabilidade

“Eu vou governar apoiada na mobilização popular, vou buscar respaldo na pressão popular. Em junho de 2013, a gente viu como as elites políticas tremeram com povo nas ruas. Claro que não posso governar com junho o tempo inteiro, mas há outros meios, como lotar as galerias do Congresso, fazer pressão nas redes sociais”, ponderou a candidata.

Questionada se essa visão não seria ingenuidade, Luciana respondeu: “Ingenuidade, ou má fé, é achar que a melhor forma de governo é o balcão de negócios, seja comprando votos ou por meios legais, como emendas parlamentares e cargos. Nós podemos governar de forma inovadora através da pressão, onde o povo seja um agente constante da política. Eu não quero a participação do povo só na hora da eleição; eu quero o tempo inteiro”.

Afinidades com outros candidatos de esquerda da eleição presidencial

“Eduardo Jorge tem uma vice que é aliada do ACM na Bahia; ele próprio foi secretário do Kassab e do Serra na prefeitura de São Paulo. Eu não tenho nenhuma identidade com o Eduardo Jorge. Tenho mais afinidade com o PSTU e com o PCB, mas tenho divergências com eles sobre como construir o caminho”, disse Luciana.

Estado laico

“O Estado é laico, entretanto, a gente entra num foro de justiça e se depara com crucifixo. Temos bancadas que eu não chamo de evangélicas porque tenho certeza de que a maioria dos evangélicos não compactua com o que dizem os Malafaias, os Everaldos, os Felicianos, mas são bancadas reacionárias. Entendo que a liberdade religiosa é uma segurança para todas as religiões e também pra quem não tem religião. e não podemos permitir que nenhuma religião interfira nas políticas públicas”, afirmou a candidata.

Descriminalização da maconha

“Estudos comprovam que a guerra às drogas fracassou. A guerra às drogas traz uma guerra aos pobres, legitimando ações violentas da polícia”, disse Luciana, frisando que essa legitimação da violenta leva à morte dos Amarildos, dos DGs e de tantos outros pobres nas periferias.

Sobre sua proposta de descriminalização da maconha, a presidenciável ponderou que “não se trata de fazer apologia ao uso da maconha, mas descriminalizar, para tirar o usuário das garras do traficante. Descriminalizar é a melhor alternativa pra que se possa debater as consequências do uso”.

Obrigatoriedade do voto

“Em certo aspecto, ainda é necessário que o voto seja obrigatório. Exercer esse direito tem que ser uma obrigação de cada um. Nos Estados Unidos, o voto não é obrigatório e isso não melhorou a qualidade da democracia eleitoral. Se não fosse obrigatório no Brasil, isso aumentaria a corrupção, no sentido de levar eleitores, de convencer eleitores”, afirmou Luciana.

Reeleição

“A questão da reeleição eu colocaria em plebiscito, porque a forma como foi estabelecida no Brasil está sob suspeita, pois houve compra de votos”, disse a presidenciável.

Ocupações de imóveis por trabalhadores sem-teto

“O MTST tem cumprido um papel fundamental para trazer à tona os problemas da área. Quando uma região se valoriza a partir de melhoria na infraestrutura, os aluguéis disparam os pobres são expulsos para áreas onde terão menos qualidade de vida. Ocupações são importantes para fazer cumprir o estatuto da cidade”, afirmou Luciana, que destacou que a função social da propriedade, prevista em lei, precisa ser cumprida.

Cotas raciais para ingresso nas universidades

“Sou a favor e acho necessário num país extremamente racista. O racismo estava sempre ali, mas agora há uma reação a ele e as cotas são uma reação”, disse a candidata.

Ação do governo federal para melhorar o ensino médio

“Tenho simpatia pela ideia de federalização do ensino médio, mas gostaria de debater com o conjunto dos educadores”, afirmou a presidenciável, acrescentando que “a União tem que auxiliar os Estados. Eu não proibiria escolas particulares, mas faria uma qualificação da escola pública”.