Luciana Genro

Carta sobre o socialismo

18 de setembro de 2014 15h11

A Luciana Genro, quando candidata à Presidência do Brasil

Por Alysson Leandro Mascaro

Luciana recebe de Alysson Mascaro a Carta sobre o Socialismo.

Luciana recebe de Alysson Mascaro a Carta sobre o Socialismo.

Querida Luciana,

Escrevo-lhe na alegria de declarar-lhe meu apoio e de dar testemunho de seu grande valor. Sua fibra, sua vontade sincera e inabalável de luta por uma sociedade transformada, sua inteligência, seu tirocínio político e social, sua humildade e sua pronta disposição a atravessar os desertos da ação política mesmo não se importando com quão longe esteja o final do trajeto, tornam-na, minha querida, uma especial líder de nosso tempo.

E lhe escrevo sendo, ao mesmo tempo, seu orientador. Nesta condição, em meio a reflexões, aulas e pesquisas, é chegada sua candidatura à Presidência do Brasil. As injunções da vida e da história conduzem a que este ensejo da luta possa ser, também, o momento do pensamento mais alto sobre a estrutura da sociedade e os horizontes da nossa época. Pela ocasião especial de tê-la como orientanda, seguindo meus passos na filosofia do direito e na filosofia política, que ao mesmo tempo lidera uma candidatura ao cargo máximo da República, dedico-lhe e anuncio esta carta.

A forma política

O Estado é forma social necessária do capitalismo. O mesmo com o direito, cuja forma é espelho da forma mercadoria. A democracia, neste solo, se abre como direito político e se fecha como direito eleitoral, em mais uma imbricação de Estado com direito, num processo de conformação.

Não se pode pensar o Estado como o bem-comum ou como o espaço neutro, privilegiado ou potencial da transformação social. Ele é forma inexorável de uma sociabilidade orientada para a acumulação. Daí, o Estado não pode ser distinto de tal sorte. Ele tem sua razão de ser no capital. Também ele arrecada e depende da dinâmica econômica. As constrições do Estado não estão apenas na vontade dos seus governantes, mas, sim, na sua natureza.

Ocorre que o Estado não é diretamente o capital. Por isso, a disputa de eleições carreia expectativas e esperanças mas, ao mesmo tempo, ela não é a possibilidade de deliberar sobre as estruturas do mundo. O fundamental está interditado ao voto. Caso o voluntarismo eleitoral leve a opções progressistas, a história dá provas vivas de que os poderes econômicos, militares, ideológicos, e mesmo o plano internacional, bloqueiam os passos conquistados no plano do poder político. De Goulart a Allende, a democracia, quando de esquerda, sofre bloqueio e é rasgada pela reação. Os específicos momentos trabalhistas de Vargas e mesmo incipientes ações do PT no Brasil, com os combates daí advindos, são também indícios a respeito.

Assim sendo, um tensionamento crítico da disputa eleitoral sempre revelará, no limite, as impossibilidades de nosso tempo. Trata-se da desesperança, mas, em especial, a desesperança quanto às formas do capitalismo. A esperança só pode ser depositada em outras formas de sociabilidade, para além do mundo da mercadoria.

As energias que advêm de todo processo eleitoral se devem ao fato de que as formas sociais se erigem de um complexo contraditório de relações sociais. O Estado não é, diretamente, o burguês ou o capital. Ele pode ser administrado por classes distintas daquelas detentoras do poder econômico, já Marx o ensinava no Dezoito de brumário. Então, de fato, há um engajamento social que permite fazer com que o Estado se incline no sentido de variados interesses imediatos. São notáveis, para a vida quotidiana do povo, as distinções entre capitalismo de intervenção e bem-estar social de um lado e, de outro lado, capitalismo neoliberal ou, mesmo, no plano político, entre a ditadura e a democracia ou entre a negação e a afirmação dos direitos às minorias. O capitalismo se estabelece, efetivamente, mediante a luta de classes e grupos, sendo que as situações das relações, tensões e lutas daí resultantes são múltiplas, por isso as tantas possibilidades políticas no seu seio.

Contudo, tais distintas inclinações da política são doses variáveis de uma mesma forma de sociabilidade. O poder do capital não coordena a política diretamente, mas a preside sempre, em última instância. Deriva desta determinação última que os ganhos sejam sempre parciais, os avanços retrocedam, os mínimos da sobrevivência tornem-se máximos. É verdade que não é desprezível o solo político das lutas de esquerda em forma política capitalista; é apenas qualitativamente estranho a sociabilidades pós-capitalistas, embora estas só possam sair do solo daquelas. O socialismo não é o acúmulo de conquistas no capitalismo. É uma outra sociabilidade. Sua chegada não é uma quantidade maior de ganhos capitalistas nem um outro arranjo das formas já dadas. É um novo.

A ideologia

Nas democracias, juridicamente, não há um impedimento de que a esquerda dispute, ganhe eleições e venha a implantar seus programas. No extremo do imaginável, é possível até mesmo avançar com ganhos constitucionais que pudessem levar, nos termos do direito positivo, à abolição da propriedade privada. Tudo isso seria objeto de legislação. Claro está que o poder do Estado e do direito em legislar nas bordas máximas da socialização enfrentará diretamente, nesse caso, o poder do capital e o braço armado da ordem estatal que o garante. Por isso, sempre o capital vive em regime político democrático mas, no limite, combate a própria democracia.

Mas, sem falar em situações-limite, tratando apenas de ganhos parciais e articuláveis dentro da lógica da acumulação, o que mesmo assim impede, então, o povo de avançar em suas lutas? Por que o povo explorado não chega a ampliar sua força e a tentar os limites de superação da própria vida capitalista? Se o mediato desse bloqueio está no capital e nas armas, o imediato está na ideologia.

Avancemos para além das compreensões da ideologia como falsificação da realidade ou como opção pessoal. De um lado, o capitalismo não é um engano ideológico nas pessoas, é sua realidade constituinte, que age em positivo. De outro lado, costuma-se tratar a ideologia como uma opção de valores e de horizontes dos indivíduos. Ser de esquerda ou de direita, ser racionalista ou crente, ser fraterno ou egoísta, estas seriam variáveis à disposição de cada qual. A vontade seria seu corolário. Tomando-se assim, seus posicionamentos poderiam ser submetidos a um juízo moral: é o egoísmo que carrearia as pessoas a serem fechadas, indiferentes, mesmo opostas a uma sociedade pós-capitalista.

Se é verdade que há um campo de ação naquilo que é o chamamento moral às pessoas, ele é muito limitado, sem grande espaço de sensibilização social. Prova disso é o relativo insucesso das candidaturas plenamente de esquerda em pleitos eleitorais. Isto porque não é apenas o chamamento político que dá horizontes. No fundamental, a ideologia opera em práticas materiais e se instala, nos sujeitos, como inconsciente. É preciso então avançar na compreensão do cerne da ideologia para agir no sentido de transformar a sociedade.

A ideologia não é um pensamento vago, nem uma escolha ocasional ou produto de uma vontade caprichosa. Ela é resultante de práticas sociais. É na materialidade que reside seu fundamento. Porque os sujeitos operam no mercado como contratantes e contratados, vendendo e comprando força de trabalho e mercadorias, então a liberdade negocial e a igualdade perante a lei são seus horizontes ideológicos. Porque o capital é concentrado nas mãos de alguns que então o Estado, garantidor da propriedade, é considerado a ordem, sendo as manifestações progressistas, a tudo isso contrárias, chamadas de desordem, baderna ou caos. Porque as pessoas são constituídas pelas formas do capitalismo, em tudo sendo calculadas, que então para tudo calculam. A ideologia não é um ato de escolha pela autonomia da vontade, pela isonomia, pela propriedade privada, pela ordem estatal ou pela mercantilização do mundo. Tudo isso não é escolha, é compulsório e advindo da materialidade das relações sociais.

Assim sendo, não é suficiente um juízo contra a cabeça das pessoas, mas sim contra a prática que gera tal mentalidade e tal horizonte de valores. O sentir-se sujeito, vendendo-se e comprando, portando direitos subjetivos, na condição de sujeito de direito e cidadão, é o arcabouço inconsciente que arma a constituição dessa própria subjetividade. Não está na faculdade do sujeito, tal qual ele é constituído, não se entender assim.

A pergunta sobre a dificuldade da esquerda em convencer eleitoralmente o povo não pode se encaminhar apenas para novas estratégias de marketing ou de discurso. É preciso conhecer a fundo a natureza e os impasses da ideologia. Só uma materialidade socialista tem o condão de gerar uma ideologia correspondente, de solidariedade para além dos interesses subjetivos. Dentro da vida capitalista, toda ideologia crítica estará inserida em seus quadrantes, revelando-se então, no máximo, uma ideologia negativa, dadas as contradições necessárias da sociabilidade da mercadoria.

Em sua materialidade, a ideologia opera por meio de grandes aparelhos ideológicos. A família dá identidade ao sujeito. A escola fornece uma unificação linguística e de referências gerais. A religião lhe dá o talhe dos valores bons. O Estado estabelece os parâmetros do nacional, cidadão, forjando-lhe o espaço histórico que lhe corresponde. O direito constitui o normal, o ordeiro e o desajustado. A empresa determina a formação e a conduta necessárias a todos os que lhe pleitearem a condição de empregados. Todo esse complexo tece as relações intersubjetivas, mas, ao mesmo tempo, é composto por aparelhagens materiais insignes e plenamente arraigadas. Daí, se o Estado for ganho por governantes progressistas, a família, a escola e a religião podem não se fazer acompanhar no mesmo passo. Se os costumes se tornarem progressistas, a empresa mesmo assim resiste e determina suas contratações com base na boa moral. É porque a ideologia se lastreia em aparelhos que ela não é alterável por mera vontade subjetiva, nem mesmo por certo grau de intersubjetividade nem por conquista de um aparelho em específico.

E, além disso, há uma materialização imediata da ideologia que, no capitalismo contemporâneo, tem sua sede nos meios de comunicação de massa. A informação opera, na tessitura da ideologia, como um dado em positivo. O que ela informa, e como informa, esta é a realidade do mundo. O que ela não informa não existe. Assim sendo, a informação não altera ou distorce os fatos: ela os constitui. Como todos os meios de comunicação de massa se sustentam pela mercadoria, sendo que seu núcleo mais arraigado é composto por grandes grupos com poderio econômico e político determinante e atravessados por interesses de classe muito cerrados, virtualmente o mundo está controlado ideologicamente, de modo material, pelos poucos grandes donos da informação constituinte. No nível dos meios de comunicação de massa, a máquina da ideologia toca diretamente o sujeito, dando-lhe o saber, a vontade e os valores tanto sobre as grandes questões quanto sobre as mínimas factualidades.

Por isso, a democracia e a vida política, no capitalismo, não operam num campo de convencimento de cidadãos que pudessem dispor de suas vontades. O saber, o valorar, o querer e o desejar resultam de máquinas de constituição de subjetividades. Dado o enfileiramento de pressupostos socialmente instituídos e formalizados, as conclusões são, claro, uma autonomia da vontade dos indivíduos, mas quase sempre inescapáveis do silogismo previamente erigido.

Além disso, como a ideologia é uma naturalização de relações sociais, ela constitui o horizonte de mundo que limita tanto a vontade dentro da democracia quanto a vontade para além desta. Dentro da democracia, ela carreia maiorias, forma inclinações políticas de acordo com as classes e os grupos, cria amigos e inimigos, desejáveis e indesejáveis. E ela opera, em especial e mais profundamente, na naturalização do próprio Estado, do direito e do domínio político. Isso é parelho do mesmo processo de naturalização, ainda mais forte, no campo da exploração econômica. A ideologia do capitalismo não é apenas uma opção, mas a única possibilidade que esta sociabilidade apresenta ao se armar.

É porque a ideologia é material, inconsciente, operando por meio de grandes aparelhos e controlada no imediato por meios de comunicação de massa que, então, são grandes ou quase incontornáveis as dificuldades para o campo da luta socialista no que tange ao clamor por sufrágio ou pela vontade dos indivíduos em encaminharem-se ao progressismo, na medida em que, nesse grande maquinário, o louvável abrir-se de alguns indivíduos, grupos ou classes para a transformação social, quase sempre, acaba sendo um acaso derivado das tantas falhas necessárias da subjetivação capitalista.

As crises do capitalismo

É verdade que o capitalismo opera sobre formas de longa estabilidade, mas os arranjos da própria produção, da exploração e do domínio político, institucional, cultural e valorativo são dinâmicos no seio dessa totalidade. Então, é também preciso ter em vista o presente do capitalismo para capturar as estratégias de sua superação.

A acumulação capitalista realizou-se, no mais longo período do século XX, mediante regime fordista. Variadas formas de intervenção estatal foram-lhe necessárias. O pós-fordismo das últimas décadas, em moldes neoliberais, demanda ainda forte intervenção dos Estados, mas com outros arranjos e horizontes. Neste último caso, a proeminência financeira acentua traços ainda mais graves da crise que é constante e necessária à própria estrutura do capital.

As lutas de esquerda, no século XX, tácita ou explicitamente, anelaram-se ao Estado e ao direito. Assim, passaram a não postular o horizonte da superação da sociabilidade capitalista, mas, sim, aumento de ganhos políticos e jurídicos. Nesse sentido, o problema da esquerda passou a ser apenas quantitativo e distributivo, dentro da própria lógica de acumulação. Os arranjos da distribuição, no entanto, são dependentes das formas, das estruturas, das relações, da dinâmica, das contradições e constrições do próprio capital. Por isso, nem avançam por moto próprio nem resistem a crises e a investidas regressivas. Na distribuição dentro da acumulação capitalista, ganhos não se fiam nem em garantias jurídicas nem em estabilidades políticas.

Insistir em lutas por melhor distribuição dentro do capitalismo corresponde a um caminho pelas mesmas encruzilhadas do século XX. De modo geral, às lutas distributivas correspondeu um processo de modernização capitalista. A Europa, no pós-guerra, assim procedeu para realinhar-se ao capital agora controlado pelos EUA. Em termos econômicos, é o mesmo que se deu, em linhas gerais, com as sociedades capitalistas periféricas que empreenderam revoluções em nome do socialismo. Da União Soviética até chegar à China, passando por tantos países do então chamado terceiro mundo, o movimento do capitalismo de Estado repôs, em outras variáveis, os termos da própria acumulação de capitais.

A crise do capital, que sempre bate mais violentamente e primeiro nos Estados periféricos, já de há muito atravessa fronteiras e se situa em regiões centrais do capitalismo. Em tais espaços dominantes, no entanto, dada a força das formas sociais, as contradições não resultam em movimentos suficientes de superação. No mundo capitalista central, a crise, em boa parte dos casos, descamba em fascismos e xenofobia. A contestação à própria lógica do capital é mais vista nos espaços periféricos, nos quais o capitalismo sempre foi a estampa do horror, que nos centrais, para os quais a crise do capital é entendida como provisória, dado que o modo de produção capitalista se toma aí como naturalizado.

Na atualidade, o intervencionismo estatal, quando supera estreitos limites neoliberais, ainda está, via de regra, adstrito a alguma ideologia de acumulação e, sempre, submetido às suas formas sociais correspondentes. Assim sendo, governos que caminham à esquerda, como alguns da América do Sul, inserem-se plenamente no sistema geral do capital, mesmo que forçando peculiarmente sua distribuição. De tal espaço insigne dentro do contexto neoliberal mundial, no entanto, é preciso avançar para reposicionar as relações sociais. Se é verdade que o receituário tradicional de intervencionismo estatal é o primeiro momento de toda política de esquerda ainda na atualidade, ele deve se acelerar rapidamente para uma alteração dos padrões de relação das massas com o poder e o controle social, sob risco de fazer tragar os passos distributivos quando da reação político-econômica que sempre lhe campeia de modo contrário.

Como as formas sociais do capitalismo são constituintes da ideologia presente, mesmo as crises estruturais do capital não costumam ser capazes de, por si só e de modo proeminente, ensejar uma avassaladora luta crítica e superadora da lógica da mercadoria. Mesmo assim, as crises podem se revelar, em algumas ocasiões, um ensejo para uma desestabilização de mais alta monta. Elas põem a nu as falhas da sociabilidade do capital, permitindo, eventualmente, um rompimento das cadeias ideológicas e uma maior força política de contestação e mesmo de superação.

A luta de classes

O capitalismo é plantado em contradições, conflitos e antagonismos que são sempre, no limite, inconciliáveis. É verdade que o presente herda da história uma série de oposições já anteriormente assentadas – brancos contra negros, cristãos contra judeus, muçulmanos e ateus, católicos contra protestantes, homens contra mulheres etc. –, mas todas essas oposições são reconfiguradas e, pois, constituídas de modo específico, com a sociabilidade capitalista. Daí, do racismo ao machismo, são todos, ao seu modo, conflitos do capitalismo.

Também o mesmo com a luta de classes. O capitalismo não apenas enseja a luta entre as classes como, na verdade, constitui as próprias classes, razão pela qual explode então a luta. Por isso, burguesia e classe trabalhadora não têm nenhuma natureza extrínseca ao capital. Não necessariamente resta um virtual fardo ontológico do trabalho ao trabalhador numa sociedade pós-capitalista. Capital e trabalho assalariado se erigem, no capitalismo, apenas em razão da infinita coletânea de mercadorias que dá sentido e forma aos sujeitos.

O segredo da mercadoria é também o mesmo segredo das lutas, dos conflitos e dos antagonismos no capitalismo. A subjetividade se arma como núcleo pelo qual passa a circulação mercantil. O sujeito autônomo é o autômato perpassado pelo capital, pela acumulação, pela apropriação privada, pela contratualização de si e do mundo. Assim sendo, o capitalismo gira em torno da subjetividade, no paradoxo de que a autonomia exuberante e plena do sujeito é também sua insignificância pessoal.

Ocorre que, ao mesmo tempo em que se funda na subjetivação das relações sociais – sendo a subjetivação jurídica um de seus momentos centrais e decisivos –, o capitalismo gera, como seu motor contínuo, a separação entre as classes e os grupos. A concorrência de todos contra todos e de tudo contra tudo separa os detentores do capital de um lado e as grandes massas trabalhadoras, desempregadas ou despossuídas de outro. Da gerência ao assalariado e ao lúmpem, as relações de produção capitalista ensejam, num processo de contínua subjetivação, a formação de classes e grupos.

Sendo resultantes de um processo sem fim de exploração do trabalho abstrato, cuja forma social se estabeleceu quando da subsunção real do trabalhador assalariado ao capital – ou seja, nas condições plenas do trabalho como mera mercadoria –, as classes e os grupos são talhados e têm por razão de sua identidade imediata exatamente as próprias relações de produção capitalistas. A causa da existência de classes e grupos, nessa forma específica pela qual se constituem, é somente o capitalismo.

É a forma da mercadoria que erige a forma política estatal. A nação, então, é um elemento de identidade que dá sentido tanto aos burgueses quanto aos trabalhadores. Luta-se num espaço social delimitado, desconhecendo-se parcial e seletivamente o exterior, porque ele dá unidade territorial às lutas dentro de um espaço dito soberano. Pelo Estado e pelo direito, também, passa o processo de subjetivação dos próprios grupos e das classes. A representação sindical, a formação de partidos políticos para as disputas eleitorais, a amarração de grupos sociais, organizações não-governamentais e os meios jurídicos e políticos institucionalizados para a movimentação das lutas são forjados pelas formas sociais necessárias do capital.

Por isso, quase sempre, o limite das lutas distributivas de partidos e movimentos sindicais e populares é a acumulação. Enredados no torvelinho de uma miríade de constantes relações sociais de exploração, antagonismo e concorrência, os indivíduos, grupos e classes pedalam uma bicicleta que nunca pode parar. O limite do ganho é a acumulação, fazendo aquela pender desta. Daí, os movimentos sociais e populares, os sindicatos e os partidos políticos, mesmo de esquerda, operam em favor da mesma sociabilidade que os constitui, ainda que para dosá-la de modos distintos, quando isso é mesmo possível e não passa de jargão.

A subjetividade é o núcleo das explorações e das dominações do capitalismo. A consciência, a boa-vontade ou até mesmo a união dos indivíduos em partidos, sindicatos, movimentos, grupos ou mesmo massas e multidões, não faz com que as relações sociais operem em grau distinto daquele dos indivíduos em interação isolada. Se as subjetividades se armam com direitos subjetivos que se transacionam sem fim, constituindo daí o mundo das mercadorias, a união de indivíduos em classes e grupos, e mesmo a eventual consciência e a gana de luta daí advindas, resultam, quase sempre, em manejos com os mesmos direitos subjetivos, apenas agora em plano social, difuso ou coletivo. Tal qual o direito privado deu conta de se atualizar em direito público administrativo e em direito do trabalho e direitos sociais, a subjetivação jurídica procede exatamente do mesmo modo com o partido político e o sindicato.

A dificuldade de superar o mundo da mercadoria por meio das matrizes da união dos despossuídos do capital – partido político, sindicato, ONG etc. – reside no fato de que operam mediante formas sociais necessárias do capital, até mesmo quando se apresentam como negativo da ordem estatal, do governo ou do burguês. A superação do capitalismo é a superação das classes, mas isto só pode se dar com o desarme dos próprios fundamentos da sociabilidade da mercadoria. Não é pelo Estado nem pelo direito, nem tampouco pelo sujeito ou pelo arranjo de suas quantidades, que tal processo se instaura. A forma-sujeito é capitalista. Só a superação das formas sociais permite o socialismo, o que não quer dizer que este se faça contra ou indiferente aos sujeitos, mas mediante formas sociais totalmente distintas a respeito da subjetividade.

No entanto, a superação das formas sociais do capitalismo só pode ser feita numa saída relacionada a estas próprias formas. Por isso a constatação do impasse estrutural é também, a necessidade de se agarrar às frestas das energias transformadoras, progressistas e libertárias que saltam das lutas dentro do capitalismo. Se os partidos progressistas radicais, os sindicatos e os movimentos populares se constituem pelas formas sociais capitalistas e nelas sempre esbarram, são ao mesmo tempo espaços de relações sociais, políticas, culturais e valorativas fundamentais, na medida em que por eles podem passar práticas distintas daquelas da lógica da mercadoria, revelando-se, ainda e então, meios de aglutinar e ensejar forças maiores que possam desaguar em lutas socialistas.

Partidos, sindicatos, movimentos populares críticos e radicais e mesmo lutas deflagradas só podem ser plenos se se articulam para fins não imediatos, isto é, não para apenas existirem mediante as formas sociais do capitalismo, mas para serem outros, para terem que um dia se acabar, para o socialismo, pois. É verdade que a articulação por meio das formas da sociabilidade capitalista, via de regra, gera a incorporação das lutas à lógica da mercadoria e da acumulação. Seu valor está no fato de que, pelos dedos das mãos dessas lutas dentro do capitalismo, possam sair, de modo inesperado, articulações e forças distintas.

A palavra da esperança

A desesperança é a melhor esperança de nosso tempo. Somente reconhecendo que as formas da sociabilidade capitalista são contraditórias, conflituosas, portadoras inexoráveis de crise e de exploração e, portanto, incapazes de serem distintas do que sempre foram e são, será então possível agir no sentido de transformar as condições presentes.

A palavra da constatação crua e cruel sobre a natureza do capitalismo e de suas vertentes – mesmo as de esquerda intervencionista e de bem-estar social – é o que permite repor o socialismo como distinto do capitalismo, escapando das repetições de tantas trilhas que só levaram aos capitalismos de Estado do século XX e também superando as ilusões de que os arranjos das formas de capitalismo, se realizados com novo engenho ou combinatória, agora então seriam capazes do novo. Não reside fundamentalmente na culpa dos agentes políticos, na sua miséria pessoal ou na sua traição a impossibilidade de avançar, pela via da representação dos trabalhadores, do partido e do governo estatal, para além do capitalismo. As formas sociais do capitalismo só têm razão de ser na acumulação e só portam exatamente exploração e dominação. Nelas, todos os indivíduos e mesmo suas vanguardas são o que foram constituídos.

Mas também a palavra da crítica, que é pois negativa ao capitalismo, não encontra solo quando a materialidade das relações sociais obriga à positividade: fechar contratos, vender sua força de trabalho, estar preparado para os novos desafios da carreira e as novas tecnologias, estar atualizado na profissão, apto ao amor, a criar filhos, a enfrentar a doença com serenidade, para tudo isso as subjetividades são interpeladas a esperanças e ao sim neste mundo. A palavra da crítica é a negação de tudo isso, que é exatamente todo o mundo de todos os sujeitos.

Parece então, de início, impossível ou infrutífera a palavra da crítica. Mas a própria sociabilidade do capitalismo nem fecha e nem é fundada em positividades perfeitas. Vende-se a si mesmo sempre, e de modo cada vez melhor, para a exploração. O positivo é seu próprio negativo. Do consumo à carreira, à tecnologia, ao amor, ao lar e ao sentido da vida, o capitalismo se estabelece como a interpelação máxima do sujeito para a sua total insignificância. A palavra da crítica ao capitalismo, nesse mundo, é nada em termos de referência e sentido, mas tem um alto potencial de ser tudo nesses mesmos termos.

É o acaso, a falha, a tentativa e o encontro que farão com que a palavra da crítica gere a ação transformadora. O capitalismo porta crise e esta, se sói ser tragada pelas mesmas formas sociais que a geram, no entanto pode explicitar as falhas da própria sociabilidade do capital. O socialismo é uma travessia para além das referências de mundo que constituem a todas as subjetividades. Tal qual é impossível estabelecer uma sociedade amorosa em nosso tempo, é também impossível erigir o socialismo a partir daquilo que o capitalismo apresenta. Mas, ao mesmo tempo e paradoxalmente, só pelos escombros desta sociedade se erigirá outra.

Todos os meios de comunicação de massa, as religiões, os Estados, as universidades, as empresas e, de modo parcial, a intelectualidade, os partidos, os sindicatos e os movimentos populares, não dão o passo para a superação do capitalismo. Sua crítica persiste num campo no máximo reformista. O gosto pela estética do novo a todo momento, que deságua sempre em sujeitos que pareçam diferentes do que aí está, revela somente mais uma faceta da estética da mercadoria.

Mas a luta pelo socialismo demanda uma materialidade mínima suficiente. Ela há de envolver a descoberta de trilhas e de ações que deslindem novos sentidos. A palavra da crítica é o fermentar de horizontes. Se a exploração capitalista se faz pelo sim, o não da luta socialista é libertador. A dor de combate socialista descortina e, portanto, tem potencial de fazer algo distinto germinar nos sujeitos perpassados, todos, pela dor de fundo da lógica da mercadoria.

Querida Luciana: em face das contradições e aflições do mundo, que sua candidatura seja o grito de alerta. Que ecoe por todo um país e pelo nosso tempo. Que encontre corações, mentes e mãos que sintam a dor de fundo mais pesada que a dor do combate. Dos escombros e da luta contra o mundo da mercadoria pode surgir um dia em que a exploração do homem pelo homem tenha fim. Nesse dia, a humanidade nos mandará uma carta, narrando a chegada a sociabilidades superiores. Então, esta carta ao socialismo terá encontrado seus derradeiros destinatários.

São Paulo, Brasil, setembro de 2014.