Luciana Genro

“O caminho mais fácil não vale a pena. Ele nos leva a reproduzir as mesmas práticas que combatemos”, afirma Luciana Genro no Painel RBS

28 de agosto de 2014 14h41

Por Redação #Equipe50

Crédito: Divulgação PSOL

Crédito: Divulgação PSOL

A candidata do PSOL à Presidência da República, Luciana Genro, participou da manhã desta quinta-feira (28) do Painel RBS Especial Eleições, em Porto Alegre (RS). Durante uma hora, Luciana apresentou suas propostas sobre educação, saúde, política externa, economia, segurança pública e, ainda, falou sobre financiamento de campanha, manifestações populares e direitos dos aposentados. Ao ser questionada se sentia incomodada ao ser chamada de radical por alguns, Luciana não fugiu e foi direta. “Eu não me importo em ser chamada de radical. Sou radical não no sentido de não conseguir dialogar, mas no sentido de ir à raiz dos problemas, de não querer paliativos e atalhos, mas de querer mudanças estruturais e lutar por elas. Claro que queremos ganhar as eleições, mas não me importo em ficar mais um tempo na oposição até conseguirmos acumular forças para combatermos certos paradigmas. O caminho mais fácil não vale a pena. Ele nos leva a reproduzir as mesmas práticas que combatemos. Foi o que aconteceu com o PT”, esclarece a candidata do PSOL.

Num dos pontos altos da entrevista, ao ser perguntada sobre o que acha da presença do Exército nas ruas para garantir a segurança da população, a candidata do PSOL disse não concordar em hipótese alguma com a as Forças Armadas nas favelas ou para fazer segurança interna. “O papel do Exército é garantir a nossa soberania e cuidar das nossas fronteiras. Ele foi treinado para a guerra e não para tratar com a população. Defendo que polícia tenha papel de proteção, não de violência como vemos nas manifestações e cotidianamente na periferia das grandes cidades”, afirma Luciana.

Outro assunto bastante debatido no encontro foi a política econômica. Sobre o tema, a presidenciável voltou a defender uma de suas principais propostas de governo, a revolução do sistema tributário, com foco na taxação de grandes fortunas. “Temos 15 famílias que concentram uma riqueza equivalente a 10 vezes o que o Brasil gasta com o Bolsa Família. Além disso, hoje, 52% da arrecadação tributária vem daqueles que ganham até três salários mínimos. Precisamos mudar isso. Não quero tributar os riquinhos, quero tributar os ricaços. A partir de R$ 50 milhões, a pessoa paga uma alíquota de 5% ao ano. Conseguiríamos arrecadar R$ 90 bilhões. É realmente um imposto para fazer distribuição de renda, e ele já está na Constituição, não sou que estou inventando”, diz a candidata do PSOL.

A dívida pública brasileira também foi abordada durante a entrevista. “Nós vamos fazer uma auditoria na dívida, assim como Equador fez e a anulou em 75%. O mundo não acabou lá e os investidores não fugiram. É só virar a chave, se estamos nos endividando para pagar juros, podemos contrair dívida para fazer investimentos produtivos, no que interessa ao povo”, explica.

Luciana ainda defendeu um novo modelo para conter a inflação. “É preciso mudar a lógica da política econômica. O controle a partir da taxa de juros começou a ser implantado em 1999 quando Fernando Henrique fez acordo com FMI de meta de inflação. A gente vê que isso, em grande medida, não funciona porque a inflação dos alimentos não responde à contração monetária provocada pela taxa de juros. Eu seguraria a inflação com mudança na lógica da produção de alimentos. Hoje temos política agrícola voltada para exportação. Se tivermos modelo voltado para pequena e média agricultura e voltada para consumo interno, seguramos a inflação”, defende a presidenciável.

Financiamento de campanha e exposição na mídia

“A nossa campanha não possui nenhum tipo de relação com empreiteiras, bancos e multinacionais. O estatuto do PSOL veda o financiamento desses setores por acreditar que mais tarde essas empresas cobrarão o ‘investimento’ que fizeram.” Luciana ainda se queixou da injusta cobertura das eleições. “O PSOL tem uma dificuldade muito grande em ser visto pelas pessoas, porque o tempo de televisão e a cobertura são desiguais. Para muitos, a eleição tem apenas três candidatos. Eu tenho muita convicção de que o PSOL ainda vai crescer. Esse contato a partir dos debates faz uma diferença grande. Se eu tivesse o mesmo espaço na mídia que têm as três candidaturas que estão à frente nas pesquisas, o PSOL cresceria muito”, afirma Luciana.

Mobilizações de junho de 2013

Questionada sobre qual foi o efeito das mobilizações do ano passado, Luciana disse que o principal resultado foi o povo ter consciência do poder que tem. “As elites políticas tremeram naquele momento. Na prática, conseguimos a diminuição do preço da passagem e que se acabasse com o voto secreto na Câmara. Foi bom, mas poderia ter sido melhor. Ao não haver uma direção com uma pauta e interlocutores claros, dificulta que se obtenha vitórias mais consistentes.”

Cargos de confiança

Para acabar com a burocracia e a falta de profissionalismo no setor público, Luciana defende cortar os cargos de confiança pela metade.”O importante é diminuir o número de cargos de confiança e promover concursos públicos. O objetivo é qualificar o servidor de carreira. Hoje, quem tem capacidade técnica está submetido a uma chefia que não conhece a área e foi indicada por um partido”, diz a candidata do PSOL.

Previdência

“A Previdência é um esforço do conjunto da sociedade para garantir a aposentadoria das pessoas idosas. Temos que acabar com o fator previdenciário e rediscutir essa visão de que a Previdência é deficitária. Eu defendo a revinculação do reajuste dos aposentados com o reajuste do salário-mínimo. Temos de discutir as fontes de financiamento da seguridade social para garantir sua viabilidade e a dignidade aos aposentados”, esclarece Luciana.

Mais Médicos

A candidata do PSOL acredita que o programa do governo federal Mais Médicos dialoga com um problema real do povo, que é a falta de médicos em áreas mais afastadas, mas vai além: “defendo uma carreira nacional para médicos, isso é fundamental. Oferecer bolsa para os médicos não é digno. Mas eu não acabaria com o Mais Médicos, acho válido como medida emergencial”, afirma.

Bolsa Família

“O Bolsa Família representa 0,5% do orçamento do país. É um gasto muito pequeno em relação ao tamanho do problema da miséria. Além disso, não houve reajuste desde o governo Lula. Eu manteria o programa e ainda aumentaria o investimento com o Bolsa Família e diminuiria os gastos com o Bolsa Banqueiro”, esclarece Luciana.

Educação

Questionada pelos jornalistas sobre como faria para que os Estados conseguissem pagar salários justos aos seus professores, Luciana defendeu a criação de um fundo federal que auxilie os governos. Ela disse ainda que sua primeira medida como presidente seria renegociar contratos de dívidas para aliviar os Estados.

Governo Dilma

Uma das jornalistas pediu para que Luciana desse uma nota ao governo da presidenta Dilma. “Dou nota zero. Acho que o PT tinha responsabilidade de fazer mudanças estruturais no Brasil, mas quando chegou ao poder, se aliou à lógica política que combatia quando era oposição. Não cumpriu sua missão histórica”, definiu a presidenciável do PSOL.