Luciana Genro

Crescimento engarrafado

24 de maio de 2012 10h38

Bernardo Corrêa*

O governo Dilma está se especializando em vender gato por lebre, como se diz. O grau de hipocrisia e de enganação chega a níveis assustadores. Porém, uma contradição em especial salta aos olhos: o país sede da Rio+20 faz um pacote para incentivar a compra e a produção frenéticas de automóveis!

O Brasil sediará a Rio+20, que supostamente está preocupada em criar mecanismos de proteção ao meio ambiente e isto traz à tona o questionamento de, afinal, que tipo de crescimento estamos interessados? Evidentemente, sabemos que a chamada “economia verde”, mencionada no Draft Zero está muito mais interessada em transformar o verde em negócio, como sugere Hans Jöhr, e a ONU pode ser um bom canal para ganhar tal invólucro. Este certamente não é o caminho. O essencial não é substituir cosmeticamente as matrizes energéticas, produtivas e de consumo, mas fundamentalmente uma ruptura substantiva com a lógica de reprodução do sistema que, por priorizar o lucro, é potencialmente destrutivo.

Por outro lado, não se trata de um retorno ao passado. Não se trata de negar, nem mesmo frear o desenvolvimento das forças produtivas. Não há muitos lugares no mundo que podemos chamar de “natureza”, no sentido frequentemente imputado ao termo, como uma espécie de antagonismo à “humanidade”. Acreditamos ser mais correto falar de uma “natureza produzida”, como sustenta David Harvey, na qual a opção política e econômica da classe dominante produz a destruição e não a diminuição das barreiras naturais. Da mesma forma, poderíamos desenvolver forças produtivas para produzir uma natureza harmônica com a humanidade.

No entanto, no país sede da Rio+20, o governo federal tem apostado na destruição ambiental como carro-chefe do crescimento econômico e, por consequência, dos mecanismos de acumulação capitalistas. Apesar do discurso demagógico do governo federal, o Brasil sustenta seu crescimento em setores que passam anos-luz à distância inclusive de qualquer “economia verde”. O agronegócio brasileiro, movimentando US$ 330 bilhões por ano, responde a 25% do PIB. O intenso debate em torno da reforma do Código Florestal e sua anistia aos desmatadores, a construção controversa de Belo Monte, entre outras obras do PAC respondem a este setor latifundiário que, para além de sua pujança econômica, tem um peso político determinante no atual bloco de poder que governa o Brasil. Este setor econômico, no entanto, concentra sua atividade em exportação de commoditties.

Em uma situação de crise e, logo, de retração da demanda global, em especial na Europa que compra em torno de 35% da produção do “nosso” agrobusiness, o governo concentra seus esforços na produção de demanda interna, assim como no incremento do que Marx chamou de Departamento I (produtor de meios de produção), em outras palavras, demanda por bens de capital. Para tanto, encontrou na indústria automobilística, que representa 10% do PIB brasileiro, uma saída para alavancar o consumo (dos trabalhadores e dos capitalistas). O pacote anunciado por Dilma R$ 2,7 bilhões para estimular o consumo, principalmente de automóveis e bens de capital, derrama incentivos fiscais e créditos para diminuir os estoques do setor automobilístico. A presidente garante: “estamos 100% preparados, 200% preparados, 300% preparados. Nós vamos resistir à crise“.

Os componentes da crise atual, porém, também envolvem uma dimensão ecológica, de esgotamento dos recursos naturais e da necessidade crescente de seu controle público, na qual o Brasil tem dado péssimas demonstrações. Quer dizer, o país que sediou a Eco-92 e sediará a Rio+20, que faz um discurso de que está construindo um caminho sustentável de crescimento, em defesa dos interesses do empresariado nos condena a cidades cada vez mais abarrotadas de automóveis, inviáveis do ponto de vista da mobilidade urbana e profundamente poluentes. Será que é este crescimento que necessitamos para deixarmos de ser campeões de desigualdade e destruição ambiental?

Os governos da iniciativa privada, como o do PT, utilizam a crise econômica como pretexto para deixar para depois qualquer medida que combata a destruição do meio ambiente, a urgência é salvar os lucros dos bancos, dos latifundiários e dos burgueses. Eles sabem que os primeiros a serem atingidos pela destruição ambiental, pelos transgênicos ou pelas enchentes são os pobres do campo, da cidade ou das florestas. E quanto aos carros? Bem, eles cada vez mais andam de helicóptero.

 * Sociólogo e da Direção do PSOL Porto Alegre.