Luciana Genro

Onde está Juan?

04 de julho de 2011 11h37

O caso Juan é emblemático. Mas correu o risco de se reduzir a apenas mais alguns números frios da mórbida estatística de desaparecimentos, de autos de resistência e de lesões corporais graves da segurança pública do estado. Isso só não ocorreu porque a mídia deu bastante visibilidade ao caso, à luta das famílias das vítimas por seus direitos, por um tratamento digno por parte do Estado, por uma investigação rigorosa do caso, contra a criminalização das próprias vítimas, todas pobres, negras e faveladas.

Diante da morosidade inicial no trabalho da polícia, a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj cobrou da Segurança Pública mais empenho nas investigações do crime, nas buscas para a localização de Juan. A Comissão também promoveu uma articulação de diferentes órgãos para garantir a devida assistência social e jurídica às vítimas e suas famílias, mobilizando a Defensoria Pública, o Conselho Tutelar, a Secretaria estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, o Ministério Público e os programas de proteção.

Onde está Juan? Ainda é um mistério o destino do menino de 11 anos, morador de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Mas há a suspeita de que tenha sido assassinado. O estudante foi visto pela última vez no dia 20/6, caído, baleado, em um beco da pequena comunidade Danon. Na mesma ocasião, o seu irmão, Wesley, 14, também foi ferido a tiros, assim como Wanderson, 19, que voltava para casa naquela hora do depósito de doces onde há 1 ano e 3 meses trabalha como repositor de mercadorias.

Em vez de seguir para a escola, depois do trabalho, Wanderson foi algemado, assim mantido no Hospital Adão Pereira Nunes, em Saracuruna, onde ainda está internado com tiros nas pernas e nas costas. Terá de se submeter a sessões de fisioterapia para poder voltar a caminhar. Só na noite da quarta-feira (29/6), o jovem recebeu a liberdade provisória, embora o alvará tivesse sido expedido na noite anterior. Ele já está sob o atendimento da Defensoria Pública.

Wesley e sua família, os pais e dois irmãos mais novos, entraram no Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte (PPCAAM). Wanderson continuava até esta quinta no Hospital de Saracuruna, sob proteção de policiais civis da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil.

Na última semana, as investigações avançaram. O inquérito referente ao desaparecimento de Juan, instaurado na 56ª DP (Comendador Soares) foi assumido pela Delegacia de Homicídios da Baixada. O GPS da PM comprovou a presença de uma equipe da PM na Danon no dia e no horário do crime. Manchas de sangue foram coletadas numa viatura que esteve no local. O par de chinelos de Juan foi recolhido durante a perícia realizada no beco somente nove dias depois do crime. Mas, até agora, nem sinal de Juan.

“Esse é um crime gravíssimo, que envolve a suspeita concreta de ter resultado de uma ação policial. Uma das vítimas permanece como desaparecida, mas nem sua mãe acredita que ainda possa reencontrar o filho vivo. E tem um jovem que trabalhou o dia inteiro antes de ser ferido e algemado como traficante e acusado de tentar matar policiais, com uma marmita e um desodorante dentro da mochila. Um garoto que paga o colégio e que agora precisa provar a sua inocência”, disse o presidente da Comissão de Direitos Humanos, Marcelo Freixo, nas escadarias da Alerj, durante ato nesta quarta-feira (29/6), organizado pelo movimento Rio de Paz.

“Não dá para admitir que uma mesma polícia atue de uma forma em alguns territórios e de outra nos demais, onde famílias ficam destroçadas como a de Juan, Wesley e Wanderson. Já passou da hora de um debate público sério para se definir qual é a polícia que o Rio de Janeiro quer”, concluiu Marcelo.

O ato contou com o apoio de diversos parlamentares do Rio e também de outros estados, como a senadora Marinor Brito, do Pará, da Comissão de Direitos Humanos do Senado. Também participou do ato a família da engenheira Patrícia Amieiro, desaparecida há três anos. De acordo com levantamento do Rio de Paz, houve 22.533 vítimas de desaparecimentos entre 2007 e 2011 no Rio de Janeiro, em uma estatística que só tem progredido com o tempo. Onde está cada uma delas?

Assista ao vídeo de Marcelo Freixo falando sobre o caso de Juan aqui

Fonte: http://www.marcelofreixo.com.br