Luciana Genro

Vivemos uma nova situação mundial

27 de junho de 2011 12h53

Pedro Fuentes, secretário de relações internacionais do PSOL.

Neste Boletim da Secretaria de Relações Internacionais n° 7 apresentamos uma série de artigos sobre a Europa e o mundo árabe. A recorrência dos temas tem um motivo mais que justo: os acontecimentos mundiais de 2011 revelam um alto dinamismo, muito superior ao período que vivíamos antes da crise econômica. O mediterrâneo parece concentrar as contradições mais agudas do sistema capitalista, e também os movimentos mais intensos da luta de classes.

Duas notícias dominam a cena européia. As idas e vindas do pacote de “ajuda” a Grécia, que envolvem novas rodadas de empréstimos impagáveis, e ajustes fiscais que recairão sobre a vida dos trabalhadores gregos.  Os investidores alemães e franceses estão fazendo de tudo para evitar a quebra do governo grego, pois as conseqüências de uma moratória serão devastadoras. Está posta a perspectiva de um Lehman Brothers europeu. Contudo, para além da análise econômica, a Europa vive uma crise política e social de alta complexidade. Os ajustes fiscais na periferia da Europa (os PIIGS) acirra a luta de classes.

O jornalista americano que ficou célebre pela frase dirigida a George Bush – “É a economia, estúpido!” – pode ser parafraseada: “É a luta de classes, estúpido!”.  As mobilizações do 19-J na Espanha (ver artigos) e as da praça  Syntagma na Grécia expressam um salto nas ações e na consciência das massas. São ações diretamente políticas contra os governos que se submetem às exigências do mercado financeiro. Grécia e Espanha estão deixando de ser pequenos problemas para se tornarem os terrenos mais críticos da crise econômica mundial. A Europa é o continente mais revolucionária da história. Os trabalhadores gregos já realizaram uma revolução esmagada pela ocupação nazista, e a Espanha carrega a tradição da luta pela república. A nova consciência se movimenta em atos de rua, acampamentos, praças tomadas, marchas gigantes. Como escreveu Negri, há um novo republicanismo na Espanha, efetivo, que enxerga a incompatibilidade entre democracia e mercado financeiro.

Ao mesmo tempo, cruciais novos fatos ocorrem no mundo árabe . Nesse boletim abordamos o Egito, a Síria e o Iêmen. Aqueles que pensavam que as mobilizações do Egito e da Tunísia eram apenas “rebeliões”, estão sendo corrigidos pelos fatos históricos. A revolução árabe se engrandece, aprofunda seu caráter social e igualitário e, principalmente, manifesta seu viés anticapitalista. Na Síria, ocorre uma nova demosntração emocionante do heroísmo das massas árabes, que parecem não ter medo de morrer uma por uma causa comum. São meses de enfrentamento, semanas de luta feroz nas ruas, mais de 1300 mortos, incontáveis detidos. Em Casablanca, Marrocos, ocorreu uma manifestação com mais de 20 mil, um sinal de que o Magreb e o Oriente Médio não vão se tranqüilizar enquanto não conquistarem seus direitos democráticos, políticos, civis, econômicos e sociais. As mulheres da Arábia Saudita também se levantaram contra a opressão do mundo islâmico fundamentalista.

Quanto tempo o regime sírio pode durar? Quanto tempo no Iêmen? Não se pode saber… mas cada vez mais a totalidade do processo determina cada uma das suas partes.

 A luta de classes e a totalidade dos processos históricos, princípios do marxismo, explicam também porque o eixo é o mediterrâneo: a Europa e o mundo árabe estão cada vez mais ligados, faces da mesma crise. A revolução árabe contagiou os jovens europeus, espanhóis, gregos. O aprofundamento da crise econômica européia também repercute nos países que dela dependem no norte da África. O signo do período é a crise, e as possibilidades de revoluções tendem a aumentar.

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