Luciana Genro

UPPs – Unidades Policiais Pacificadoras

12 de novembro de 2010 12h47

O presidente do PSOL gaúcho, Roberto Robaina, conta como foi sua visita ao Rio de Janeiro nesta semana, onde se encontrou com o deputato estadual reeleito Marcelo Freixo, inspirador do personagem Fraga, do filme ‘Tropa de Elite 2’.

UPPs – Unidades Policias Pacificadoras

Estive no Rio de Janeiro nesta semana. Visitei o camarada deputado Marcelo Freixo. Como sempre foi uma grande satisfação. Estive com ele, com Israel, Honório, a jornalista Renata, todos juntos trabalhando na pauta de uma edição da Fundação Lauro Campos sobre o filme Tropa de Elite II. Almoçamos com Marcelo, o inspirador do deputado Fraga, e conversamos sobre a revista e as perspectivas do PSOL. No dia seguinte, convidado por Marcelo, fui ao chapéu-mangueira, comunidade localizada no morro ao lado da praia do Leme.

Começo pelo mais belo em termos de arte: a visao do Rio de Janeiro da parte mais alta do morro. Que visão! O líder comunitário, o amigo Sidnei, disse que a comunidade tinha em mente um plano de fazer ali uma rota turística. Grande idéia. Pena que o governo com as suas UPPs nao cogite que a comunidade mesma, autoorganizada, realize tal empreendimento. Vão tratar, com certeza, de colocar empresas privadas tocando as iniciativas. Mas isso nao é nada.

O pior é o que está por vir em termos de geografia da cidade. Numa entrevista logo abaixo neste blog Marcelo Freixo explica bem o que signicam as UPPs: trata-se de um projeto de cidade. Um projeto, acrescente-se, excludente, de remoção dos pobres e favelados da zona sul do Rio de Janeiro. Assim como uma vez os pobres foram expulsos do centro, agora seriam postos para fora da parte turistica da cidade. Este é o verdadeiro sentido estratégico das UPPs.

É claro que todos concordam com a necessidade de liquidar com as milicias e com o tráfico. Isso é óbvio em se tratando de pessoas como Marcelo Freixo, que durante mais de 20 anos é militante da causa dos direitos humanos.

Mas no projeto das UPPs o Estado está entrando apenas com a Polícia. Nao entra com saúde, nem com educação. O posto de saúde da comunidade que visitei, com todo o prédio montado, estava abandonado pela prefeitura. A creche idem, apesar de mulheres da comunidade trabalharem em prol da creche quase de graça. Nao faltam crianças: sao mais de 70. O que faltam sao as verbas do estado e/ou da prefeitura para pagar os salários e para a manutenção.

Bem, o fato é que embora faltem os recursos sociais, já começam a bater na porta as exigências para que as construções sejam regulares, etc, etc, ou seja, as pressoes para que as pessoas cansem e deixem o local. É apenas o começo, mas já começou.

Com a valorização dos terrenos, “pós-pacificação”, começarâo as tentativas de comprar as propriedades. Alguns dirão que isso sao as leis do mercado. Efetivamente: muitos dos mais pobres sem serviços públicos e com ofertas ” generosas” acabam vendendo suas casas. Por isso Marcelo tem razao: trata-se de um projeto de cidade. Sua implantação pode demorar dez ou quinze anos, mas começou e tem como objetivo separar os ricos e as classes médias dos pobres e das pessoas que vivem na miséria. Assim, o apartheid se confirma, se consolida, e a burguesia pode mandar reprimir as mobilizações e os protestos populares com menor índice de incômodo de seu cotidiano.

Uma questao mais: se de fato estivessem querendo que as terras desta comunidade fossem valorizadas mantendo ao mesmo tempo este espaço para a comunidade, o governo nao apenas já estaria garantindo uma melhoria substancial dos serviços públicos mas também estabeleceria a propriedade coletiva destas terras, ou seja, firmaria com a comunidade a proibição da comercializaçao dos barracos, garantindo desde já que cada família teria direito de uso garantindo, com a comunidade se mantendo no local.  Mas assim, gritariam os liberais ou os confundidos por esta ideologia, a propriedade dos pobres nao seria respeitada. Conversa! Em nome da liberdade vao, na verdade, pouco a pouco, expulsando estas famílias.

Com tudo isso fica claro que a propaganda de Sérgio Cabral, do PMDB, do PT, de Lula, e do ex-ministro da justiça Tarso Genro, de que as UPPs são a oitava maravilha do mundo nao passa disso: propaganda. E cai por terra mais uma tentativa de vender gato por lebre, isto é, vender a ideia de que estão trabalhando pelos direitos da cidadania quando na verdade estao projetando uma cidade a serviço dos mais ricos.


Fonte: robertorobaina.blogspot.com