Luciana Genro

Falece o escritor José Saramago

20 de junho de 2010 14h52

Prêmio Nobel de Literatura morreu aos 87 anos, em sua casa de Lanzarote

O escritor José Saramago, primeiro e único Prêmio Nobel de Literatura de língua portuguesa, faleceu dia 18, em sua casa de Lanzarote, aos 87 anos, por causa de leucemia crônica, segundo confirmaram fontes da família. A morte ocorreu pouco depois das 13 horas (hora peninsular), quando o escritor se encontrava em sua residência canária, acompanhado de sua mulher e tradutora Pilar del Río.

“Nossa única defesa contra a morte é o amor”, disse numa ocasião José Saramago, a quem não só o amor ajudou a combater essa morte que o levou hoje. Também o fizeram os numerosos romances que escreveu ao longo de sua vida e que foram reconhecidos com o Prêmio Nobel em 1998.

De origem humilde, Saramago se dedicou à literatura porque não lhe agradava o mundo que lhe tocou viver. Seus romances encerram reflexões sobre alguns dos principais problemas do ser humano; fazem o leitor pensar, o abalam e comovem. Seus personagens são cheios de dignidade.

Nascido em 16 de novembro de 1922, em Azinhaga, uma aldeia de Ribatejo (Portugal), José de Sousa é mais conhecido pelo apelido de sua família paterna, Saramago, que o funcionário do Registro Civil acrescentou ao inscrevê-lo. Quando tinha dois anos, sua família se mudou para Lisboa, mas nunca rompeu seus laços com Azinhaga.

Ainda que tenha sido um aluno brilhante, teve de abandonar o ensino secundário, ao terminar o primeiro segmento, ante a falta de meios econômicos de seus progenitores. Antes de dedicar-se plenamente à literatura e de converter-se num dos melhores romancistas do século XX, Saramago trabalhou em ofícios como os de serralheiro, mecânico, editor e jornalista. Foi diretor adjunto do “Diário de Notícias” de Lisboa.

Seu maior sonho

Mas seu maior sonho era ser escritor. Em 1947, publicou seu primeiro romance, “Terra de pecado”.  Por essa época, ascendeu nele a consciência política que sempre o acompanhou e que o levou a filiar-se, em 1969, ao Partido Comunista Português. Após um longo silêncio de quase vinte anos, durante o qual ficou sem publicar, porque não tinha “nada para dizer”, Saramago se arriscou na poesia, entre 1966 e 1975, e publicou “Poemas possíveis”, “Provavelmente alegria” e  “O ano de 1993”.

Como disse, quando Alfaguara, sua editora espanhola, publicou sua “Poesia completa”, em 2005, nunca foi “um poeta genial”, nem “um grande poeta”. Apenas se considerava “um bom poeta”. Em 1977, veio à luz o romance “Manual de pintura e caligrafia”, ao que se seguiram o livro de contos “Quase um objeto” (1978) e a obra teatral “A noite” (1979).

Seus romances encerram reflexões sobre alguns dos principais problemas do ser humano; fazem o leitor pensar, o abalam e comovem

Nos anos oitenta, voltou ao teatro com “Que farei com este livro?” (1980), o relato “Levantado do chão” (1980 – Prêmio Cidade de Lisboa) e o livro de viagens “Viagem a Portugal” (1981). Com essas obras, Saramago já assentara as bases para esse mundo próprio que foi construindo livro após livro, e em 1982 alcançou a fama mundial com “Memorial do convento”, que lhe valeu o Prêmio do Pen Club Português, galhardão que voltou a ganhar em 1984 com “O ano da morte de Ricardo Reis”, também reconhecido com o Prêmio Dom Dinis da Fundação Casa de Mateus.

A partir daí, seu prestígio se foi consolidando com títulos como “Jangada de pedra” (1986), levada ao cinema, em 2002, pelo diretor holandês George Sluizer e protagonizado por Federico Luppi, Icíar Bollaín e Gabino Diego; a peça teatral “A segunda vida de Francisco de Assis» (1987); e “História do Cerco de Lisboa” (1989).

Em 1991, publicou o romance “O evangelho segundo Jesus Cristo”, muito criticado pelo Vaticano e objeto de um polêmico veto em 1992, que o retirou da lista de candidatos ao Prêmio Literário Europeu, para o qual fora selecionado por um júri do Pen Club de Portugal e pela Associação de Críticos Literários Portugueses. Apesar de tudo, esta obra recebeu o prestigioso Prêmio da Associação de Escritores de Portugal (1992). Nesse último ano, obteve o Prêmio Faliano de Literatura com seu romance “Uma terra chamada Alentejo”. Os problemas que teve em Portugal o levaram, em 1993, a mudar sua residência para a Espanha, especificamente para a ilha canária de Lanzarote, acompanhado por sua segunda mulher, a jornalista espanhola Pilar del Río, tradutora do escritor.

Seus últimos anos

Após publicar sua quarta obra de teatro, “In nomine Dei” (Grande Prêmio de Teatro da Associação Portuguesa de Escritores), passou a integrar o Parlamento Internacional de Escritores. O ano de 1995 foi especial para ele, com a obtenção do Prêmio Camões para o conjunto de sua obra e a publicação de “Ensaio sobre a cegueira”, primeiro livro de sua trilogia sobre a identidade do indivíduo, que continuou com “Todos os nomes” (1998) e encerrou-se com “Ensaio sobre a lucidez” (2004).

O primeiro livro da trilogia foi levado ao cinema, em 2008, pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles, sob o título de “Blindness”. Seus inegáveis méritos como romancista foram por fim reconhecidos em 1998 com o Prêmio Nobel de Literatura, que lhe outorgaram por haver criado uma obra na qual, “mediante parábolas sustentadas com imaginação, compaixão e ironia, nos permite continuamente captar uma realidade fugidia”.

Nos últimos anos, Saramago não deixou passar muito tempo entre um romance e outro. Estava consciente de sua idade e, se tinha “ainda algo para dizer”, o melhor é que o dissesse “o quanto antes”. Ainda que também dissesse que “chegará o dia em que se acabarão as ideias, e não acontecerá nada”. Fruto dessa urgência para contar foram seus romances “A caverna” (2000); “O homem duplicado” (2002); “As intermitências da morte” (2005); “As pequenas memórias” (2006); “A viagem do elefante” (2008); e “Caim” (2009), o último romance desse grande escritor.

Entre suas obras figuram também os autobiográficos “Cadernos de Lanzarote I e II” (1997 e 2001). Saramago estava consciente do poder que tinha a internet para difundir qualquer ideia e, em setembro de 2008, começou a publicar seu blog, intitulado “O caderno”. Foi “um espaço pessoal na página infinita da internet”, segundo suas palavras. A morte o surpreendeu quando preparava um romance sobre a indústria do armamento e a ausência de greves nesse setor, ou ao menos essa era a ideia que queria desenvolver, segundo disse quando apresentou “Caim”, em novembro de 2009.

Saramago morreu acompanhado de sua família, despedindo-se de uma forma serena e plácida, indicou num comunicado a fundação que leva seu nome.

Saramago, uma página sempre aberta

Lucía Santos

Havana, 19 jun. (PL) – O escritor português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura 1998, deixou atrás de sí uma obra admirável, densa e conceitual, íntimamente comprometida com o mundo do qual formava e prossegue formando parte.

Sua morte, na última sexta-feita, comoveu os meios artísticos e intelectuais de todo o orbe e a uma legião infinita de leitores conectados de maneira profunda com a alta literatura que cultivou sempre.

Uma literatura sem concessões, afiada como um bisturi com a qual penetrava no fundo da realidade, na história do homem e no devir do tempo, tomando como fio o presente para uma viagem ao passado e dali desentranhar, com uma nova perspectiva, as complexidades e turbulências do hoje que habitamos.

Tudo isso com uma olhada abarcadora e um exercício sem trégua da reflexão, às vezes nascida como para si mesmo, mas na que cada qual sentía latir suas próprias inquietações, suas incertezas, interrogações e certezas, como ocorre com toda legítima obra de arte.  Uma prosa, a sua, polida e resplandecente, de uma limpeza diamantina, e uma linguagem cuja riqueza emana da ausência de vãos transbordamentos.

Saramago morreu aos 87 anos em sua residência de Lanzarote, Canárias, que compartilçhava com temporadas em sua casa de Lisboa, uma cidade da qual nunca quis prescindir e cuja luz amava.

Foi uma morte tranquila, pouco depois de se alimentar e conversar com sua esposa Pilar del Río. Há pouco tempo publicara Caim, seu último romance, que atraiu sobre ele os ataques da Igreja católica, que nada puderam contra sua natureza transgressora à que foi sempre fiel. Las últimas fotos suas que circularam evidenciavam um físico já minguado pelos estragos de uma longa pneumonia e sua esteira de complicações cardiorrespiratórias, da que emergiu. Mas quase até o final conservou seu andar ágil, suas pernas impulsionadas por um movimento que nascia das cadeiras, impregnando-as de um ritmo dinâmico, harmonioso, um andar surpreendentemente juvenil.

E, sobretudo, manteve incólume uma lucidez apaixonada, o fescor do espírito e um comprometimento absoluto com suas ideias e suas convicções políticas. A Cuba, sempre a levou consigo.

Poeta, dramaturgo e jornalista, deixou um legado literário que conjuga profundidade e beleza numa síntese radiante. No computador em que trabalhava, ficaram as últimas linhas do novo texto que escrevia, “Alabardas, lanças, arcabuzes, mosquetes”, título tomado de um verso do grande poeta luso Gil Vicente.

Saramago só se foi físicamente. Para seus leitores, sempre será uma presença próxima, uma pagina viva, aberta.

Chávez presta homenagem a José Saramago

Caracas, 20 jun. (Prensa Latina) – O presidente Hugo Chávez lamentou hoje a morte do escritor, romancista e dramaturgo português José Saramago, que considerou um verdadeiro guia da dignidade dos povos.

“Nessa sexta-feira, 18 de junho, recebemos a triste notícia do desaparecimento físico do mestre José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura de 1998.  Saramago foi um escritor imenso e, ao mesmo tempo, uma grande consciência de Portugal e do mundo”, sinalizou o presidente em sua coluna dominical “As Linhas de Chávez”.

Para o estadista, o autor de “Memorial do convento” e “Ensaio sobre a cegueira” deixou como legado a necessidade humana de manter viva e ativa a capacidade de se indignar frente às injustiças do mundo.

“Como depoimento de admiração, quero recordar palavras suas nas que me reconheço plenamente como revolucionário e como homem: ‘Espero morrer como vivi, respeitando a mim mesmo como condição para respeitar os demais e sem perder a ideia de que o mundo deve ser outro e não esta coisa infame’ “.

Fonte: Fundação Lauro Campos