Luciana Genro

Economista critica avaliações de crescimento do país

24 de maio de 2010 08h16

O economista Décio Munhoz, da Universidade de Brasília criticou as avaliações feitas por analistas, com repercussões internacionais, sobre o crescimento elevado da economia brasileira. Nessas avaliações, um crescimento acima de 5% poria em risco a sustentabilidade da economia do país, com inflação e desaceleração já no ano que vem.

Em entrevista à Agência Brasil, ele afirmou que essas avaliações são irrelevantes porque os analistas estão esquecendo que os indicadores de crescimento da economia do país, por mais elevados que sejam, têm como base de comparação os números deprimidos do ano passado, período em que o mundo viveu uma das maiores crises do últimos anos.”Nós estávamos lá em cima em um determinado patamar em 2008. De repente, você caiu no fundo do vale. Agora, estamos subindo do vale. Então, quando eu faço comparação com o fundo do vale, me dá algo expressivo. Estão fazendo confusão”, disse o professor, lembrando que as comparações devem ser feitas em um cenário de recuperação.

Ele criticou o Banco Central quando propõe restrições à economia. “É uma estupidez. Os níveis de produção da indústria são iguais aos de meados de 2008. Então, está errado dizer vamos estourar isso, vamos estourar aquilo”.
Munhoz destaca que essas avaliações tanto do BC, quanto dos analistas, incluindo o FMI, parecem ser precipitadas porque a economia brasileira apenas está recuperando o que perdeu durante a crise do ano passado. Segundo ele, nenhum desses fatos irá “arrebentar” a economia, não haverá pressão de demanda. Nada do que o BC e os analistas , segundo ele, estão indicando.

“Apenas, devemos nos cuidar é que havia um nível de preocupação muito grande financeira nas bolsas etc. e isso gerou uma demanda não permanente no campo financeiro. Isso provocou uma distorção e se pode perder um controle. Não é o salário, o emprego, não é nada disso”, disse.

Para ele, o BC precisar ser mais cauteloso ao aumentar os juros da economia em sua política monetária para controlar a inflação. Em suas contas, o aumento recente da taxa básica de juros de 8,75% para 9,50% provocará um gasto anual para o Tesouro Nacional de R$ 15 bilhões com a dívida pública. “Isso é quase o PAC”.

“Se você analisar quanto você gasta com o PAC de investimento, que de R$ 20 bilhões se gasta a metade, então, só com juros, será o mesmo que o PAC”, comparou. De acordo com o professor, é preciso ter certos cuidados para a economia do país não ir para o buraco pelo excesso de remédios tomados ou por remédios errados.

Mas Décio Munhoz admite que o Brasil poupa pouco e gasta muito se for levado for usada a mesma comparação entre os juros da dívida e os investimentos do PAC. se são gastos R$ 200 bilhões em juros da dívida pública e por outro lado orça o PAC em R$ 20 bilhões. “Ou seja, estou investindo um décimo do que se gasto com juros. Somos vítimas dessa armadilha”, disse.

O economista da UnB também acredita ser equivocada a política de emissão de títulos públicos para garantir financiamentos privados, pois, segundo ele, isso também aumenta a divida pública federal.”Recentemente, no bojo da crise decidiu-se reforçar o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] em R$ 180 bilhões com a emissão de títulos para as empresas não quebrarem. Parte foi para isso mesmo, mas parte ficou concentranda em poucas empresas. Isso, no entanto, dá um salto terrível da dívida pública”. Segundo Munhoz, “agora a dívida pode subir muito mais por causa da elevação dos juros”.

Daniel Lima, repórter da Agência Brasil

Fonte: Fundação Lauro Campos