Luciana Genro

Para PSOL, FSM Bahia serviu a interesses governistas

03 de fevereiro de 2010 09h15

Entre os dias 29 e 31 de janeiro, ocorreu em Salvador o Fórum Social Mundial Temático Bahia (FSMT). A expectativa era que cerca de 50 mil pessoas participassem do evento, mas, segundo Franklin Oliveira, membro da coordenação do Fórum e militante do PSOL, estiveram presente aproximadamente 5 mil. O tema do FSMT foi ‘Da Bahia a Dakar: enfrentar a crise com integração, desenvolvimento e cidadania’, e ocorreu na sequência do tradicional evento de Porto Alegre, realizado entre os dias 25 e 29. Além das agendas próprias, os fóruns baiano e gaúcho discutiram temas comuns, que serão levados para o FSM unificado em Dakar, Senegal, em 2011.

De acordo com Oliveira, o FSMT prometia um diálogo da sociedade política com a sociedade civil e respostas à crise. No entanto, com o recuo da UFBA – Universidade Federal da Bahia em ceder sua estrutura para a realização do evento, os organizadores investiram numa duvidosa descentralização, espalhando as atividades em diversos locais da cidade.  “Dessa forma, pouco se viu do espírito do fórum”, conta.

Ele relata que a dimensão cultural esteve restrita a escritores, poetas e cineastas que, sem qualquer apoio dos organizadores, lançaram 24 livros e inseriram o cinema no FSM.  “O  diálogo e debate com os chefes de Estado foi um rotundo fracasso. O Itamaraty faltou a sua responsabilidade de efetivar os convites às autoridades africanas e latino-americanas e, nem o próprio presidente, em função de crise de hipertensão, compareceu”, ressalta Oliveira.

Para Luís Antônio de Araújo Costa, o Luís Papa, também militante do partido e coordenador do Fórum Social Pan-Amazônico de 2002 a 2004, houve uma grande alteração no modus operandi do fórum cujas atividades foram realizadas em hotéis, com ampla presença de quadros políticos e utilização de mecanismos explícitos de cortejo partidário. “Houve ainda a falta de empenho no envolvimento das entidades do terceiro setor que sempre estiveram na órbita política-econômica do PT”, salienta.

Conforme explica Oliveira, a preocupação da comissão organizadora e dos governos em evitar a todo custo a presença de intelectuais críticos ao governo acabou por prejudicar as conclusões do fórum. “O que se viu foram mesas depuradas sob veto político-ideológico a marxistas – integrantes de PSOL, PCB, MST, Via Campesina, integrantes da Farc – e o afastamento de outros intelectuais críticos”, diz.  Tais movimentos foram substituídos por secretários, ministros e funcionários dos governos. “Não se conseguiu nem produzir a anunciada Carta de Salvador, que o FSM Temático ficou devendo ao Brasil e ao mundo”, completa.

Luís Papa acredita que ficou claro que o os métodos aplicados na construção do evento FSMT/BA pelos representantes dos governos federal e estadual colocam em risco a lógica e o espírito tradicional do evento. “O FSM pertence a todos e todas e não pode ser privatizado por ninguém, nem por nenhuma força política”, reclama o militante.

Em função das dificuldades relatadas, um “segundo fórum” ocorreu em sindicatos, universidades e no passeio público. “Tratou-se de um fórum pobre, sem qualquer apoio dos organizadores, que preferiram investir perto de R$ 2 milhões nas atividades dos hotéis. Boa parte dos participantes das atividades promovidas pelos movimentos sociais sequer se credenciaram ou gozaram do direito de receber a sacola oficial com a propaganda da Petrobras”, conta Oliveira.

Apesar da falta de apoio e estrutura, esses grupos realizaram discussões importantes, como um debate com Plínio Arruda Sampaio, que encheu o Espaço Cultural da UCSAL; a plenária nacional pró-Conclat, que mostrou que a militância continua firme organizando a nova central, além de atividades do movimento negro, do movimento de mulheres, indígena e reuniões da Consulta Popular e da Assembléia Popular.  Ocorreu ainda um ato de solidariedade ao Haiti e de condenação à ocupação norte-americana que está contando com o apoio ostensivo do governo brasileiro. “Esta atividade rivalizou com a ‘marcha’ de encerramento do fórum, uma atividade carnavalesca com cerca de 2 mil pessoas, onde uma banda se apresentava cantando sucessos da axé music ”, relata o organizador.

Segundo Oliveira, o FSM Temático deixou lembranças e lições. Uma delas é que é incompatível com os princípios dos fóruns a presença orgânica dos governos na sua organização. “Os governos transformaram um dos mais caros patrimônios dos movimentos sociais em um ‘evento’ chapa-branca e eleitoreiro, disfarçado de ‘novidade’”, conclui.


Fonte: psol.org.br