Luciana Genro

A conjuntura atual: projeções a curto e médio prazos

18 de fevereiro de 2010 08h45

por Immanuel Wallerstein

1. Onde estamos:

a) O mundo entrou em depressão, e os maiores impactos ainda estão por vir (nos próximos cinco anos).

b) O poder geopolítico dos Estados Unidos entrou em grave declínio, e os maiores impactos ainda estão por vir (nos próximos cinco anos).

c) O meio ambiente mundial está entrando em grave crise (e nada muito significativo será feito a respeito nos próximos cinco anos).

d) Os rumores sobre movimentos sociais esquerdistas estão por toda parte, porém são mal coordenados e não possuem uma visão tática clara (pois lhes falta uma visão estratégica de médio prazo).

e) As forças de extrema direita possuem uma visão mais clara de curto prazo do que as de esquerda (combinando preparo para a violência e recusa de um comprometimento mais centrista), todavia também lhes falta uma visão estratégica clara de médio prazo.

f) O futuro (tanto no curto como no longo prazo) é muito, muito incerto.

2. Possíveis desdobramentos para os próximos cinco anos

a) Explosão da última bolha – (principalmente, mas não somente) a dívida soberana, especialmente dos Estados Unidos.

b) Suas consequências:
b1) Queda significativa do dólar americano, dando lugar assim a uma economia mundial genuinamente multicambial;
b2) Aumento significativo das taxas de desemprego em todo o mundo;
b3) Ausência de paraísos fiscais levando a grande flutuação nas taxas de juros e, portanto, menor disposição a investimentos.

c) Enormes transtornos (ainda maiores) por todo o Oriente Médio e, particularmente:
c1) Provável regime militar no Paquistão, apoiando mais ou menos abertamente o Talibã no Afeganistão;
c2) Estabelecimento do controle do Afeganistão pelo Talibã;
c3) Total retirada das tropas americanas do Iraque e possivelmente também do Afeganistão;
c4) 50% de possibilidade de Israel bombardear o Irã, levando a uma fortíssima reação mundial contra Israel;
c5) Tumultuado regime na Arábia Saudita, com possível golpe militar.

d) Consequências nos Estados Unidos:
d1) Violenta demonização de Obama (e dos Democratas) por traição;
d2) No melhor cenário, Obama será reeleito em 2012 numa vitória apertada;
d3) Pressão da ala mais radical de direita por uma tomada de poder militar, com pelo menos a criação generalizada de milícias armadas desafiando o governo.

e) Criação de blocos geopolíticos não mais centrados nos EUA:
e1) Fortalecimento das relações geopolíticas Europa Ocidental- Rússia;
e2) Fortalecimento das relações geopolíticas China-Japão-Coreia do Sul;
e3) Fortalecimento das relações geopolíticas sul-americanas, lideradas pelo Brasil, com múltiplas tentativas de golpes de direita (com sucesso incerto).

f) Meio ambiente: Não haverá grande diminuição da degradação ambiental nem serão tomadas grandes medidas para resolver o problema.

3. Prováveis desdobramentos para os próximos 15-25 anos:

a) Reconhecimento evidente, por parte dos maiores controladores do capital, da impossibilidade do futuro acúmulo significativo de capital e, portanto, da busca ativa por modelos sistêmicos alternativos que possibilitem a obtenção de três características chave do sistema vigente (hierarquização, exploração e polarização),

b) Lento reconhecimento por parte “da esquerda” mundial de que a questão central não é pôr ou não fim ao capitalismo, mas sim organizar um sistema sucessor que estará em processo de construção,

4. Quais são as políticas para a esquerda mundial?

a) Nem os governos “de esquerda” nem os movimentos sociais “de esquerda” podem fazer muito no curto prazo (nos próximos cinco anos) se não se empenharem em ações defensivas, cujas características principais devem ser “minimizar o sofrimento” da classe trabalhadora em geral e dos mais oprimidos e afetados pela pobreza. Todos os governos “de esquerda” continuam a viver dentro dos limites da economia capitalista mundial.

b) As políticas reais para “minimizar o sofrimento” variam de acordo com a estrutura política do estado e sua posição econômica na economia mundial. Não há nenhum estado cujas camadas trabalhadoras não sofrerão nos próximos cinco anos (incluindo o Norte), e não há programa que possa ser aplicado em todos os lugares. Os movimentos esquerdistas organizados precisam respeitar as pressões populares a partir das bases.

c) A batalha crucial será travada no longo prazo (nos próximos 15-25 anos). Não será uma batalha sobre o capitalismo, mas sobre o que o substituirá como sistema social histórico. Tanto as forças de direita como as de esquerda existem por todo o mundo. A batalha não será entre estados, mas entre as forças sociais mundiais.

d) Tanto as forças de esquerda como as de direita não estão unidas em todo o mundo e, em ambos os campos, existem graves lutas internas sobre a estratégia correta a seguir.

e) O resultado das lutas internas em cada campo e o resultado da luta entre os dois campos são ambos completamente incertos atualmente. A História não está do lado de ninguém. O resultado final pode ser bem melhor ou bem pior do que o sistema mundial capitalista vigente.

f) A maneira chave de se proceder é (1) a obtenção de lucidez analítica, (2) seguida por uma escolha moral fundamental, (3) seguida por uma ação política inteligente e eficiente. Nem um pouco fácil.