Luciana Genro

Qual é o pior inimigo da Revolução?

09 de dezembro de 2009 14h52

Ediorial de Marea Socialista N 24
Publicação da corrente Marea do PSUV

O ano de 2009 está terminando com novidades e perigos. A novidade?  O discurso do Presidente Chávez na abertura do Congresso do PSUV. Ali colocou a necessidade de atacar os problemas de fundo que sofre a revolução. Novidade? Ele anunciou a construção de uma organização internacional de esquerda. Esta última levantou ruídos em todo o mundo.

Perigos? Entre o povo chavista, há desilusão e em alguns casos desengano. A enorme abstenção na eleição para os delegados do Congresso do partido (mais de 52% dos habilitados para votar não o fizeram, segundo dados oficiais) é uma mostra disso. São mostras também as críticas, o aborrecimento e até o desprezo com que setores importantes do povo revolucionário classificam funcionários do alto governo como responsáveis pelos problemas urgentes que não encontram solução.

Neste marco, a pergunta oportuna e necessária é: qual é o pior inimigo da Revolução Bolivariana? Uma resposta superficial e rápida poderia designar o imperialismo, suas agressões e suas bases na Colômbia como um enorme inimigo, e isto é certo. Outra poderia imaginar a direita oligárquica e entreguista, e isto também seria verdade. Inclusive, a associação entre imperialismo e oligarquia poderia ser vista como um enorme obstáculo para o desenvolvimento da revolução.

Sem dúvida, na consciencia do nosso povo ficou gravado que todo 11 terá seu 13, e que o povo revolucionário reagiria unido e decidido, a batalhar frente a qualquer ataque do imperialismo e da oligarquia. Entretanto, não está aqui o principal dos problemas.

Quando depois de anos e com enormes investimentos, deve-se reconhecer a crise no sistema de saúde pública; quando os apagões obrigam a olhar cara a cara a crise elétrica; quando o presidente exige que apareçam os responsáveis de muitos dos desmanes que o povo sofre diariamente e eles não aparecem; quando pede que tomem o poder os trabalhadores que há anos vêm anunciando esta situação e a burocracia lhes fecha o caminho; quando por fim prendem um dos banqueiros que fez mais negócios milionários com o governo e intervêm em seus bancos, mostrando um sistema financeiro que trabalha contra a revolução, etc., podemos observar que não são a oligarquia e o imperialismo os responsáveis por estes feitos. Os responsáveis por estes e outros feitos estão no interior do processo. Vivem a própria revolução: é a burocracia, a do Estado, a do governo e a do próprio partido.

A sensação que se tem nas ruas é que quase nada ou muito pouco do que promete ou impulsiona o governo será cumprido. E isto desmoraliza, tira a confiança, e faz baixar os braços do povo revolucionário. O problema é que alguns estão deixando de crer no futuro da revolução e até da luta pelo socialismo. Escuta-se no “Alô presidente” ou nas aparições de Chávez linhas de ação e investimentos e não se vê na realidade que se avança até a solução efetiva dos problemas do povo. Anúncios e investimentos que se perdem no caminho do burocratismo e da corrupção.

Nestes dez anos de revolução se foi construindo uma burocracia de Estado. De um Estado burguês, capitalista. Uma parte é um lastro herdado daquilo que não conseguimos nos desfazer; outra parte é nova. Este estado é um freio para o avanço da revolução, e a burocracia que o dirige o defende porque é ele o oxigênio para manter seus privilégios. O Estado capitalista, ainda que debilitado, está em pé; se mantêm íntegros os mecanismos para beneficiar as classes exploradoras e a seus gerentes dentro da estrutura estatal.

O investimento milionário em saúde, habitação e em outros setores necessários para o povo pobre não mostra resultados para além dos primeiros ganhos obtidos pelo processo. Foi necessário re impulsionar Barrio Adentro, em crise. É imprescindível implementar um plano de solução aos problemas energéticos. Mas, enquanto o presidente diz que se deve dar  participação aos trabalhadores, o novo ministro da eletricidade faz todo o possível para não convocar-los a assumirem postos na empresa. Então, a fúria cresce e, as vezes, é muita a desilusão. Em meio disto, a vontade de luta desponta na Venezuela Bolivariana. A burocracia defende suas negociatas e privilégios, e os trabalhadores para assumirem postos na economia e no funcionamento do país deverão lutar e já o estão fazendo, duramente, contra o próprio governo.

Congresso extraordinário: foi extraordinária a manipulação em cada região    na eleição dos delegados ao Congresso do PSUV. O resultado? Um congresso com uma maioria de delegados composta de militantes profissionais, vulneráveis a votar qualquer coisa que seus empregadores os indiquem. A sacudidela que deu o presidente no ato de abertura não será suficiente para que o aparato eleitoreiro e clientelista se converta em um partido revolucionário. A burocracia não o quer. A base, os verdadeiros delegados eleitos pela vontade das bases devem ser garantidores do direito dos militantes e da revolução. Sem verdadeira democracia se  estará construindo uma casca vazia. Sem participação não haverá idéias novas para a revolução. Sem crítica, e propostas de aprofundamento revolucionário, triunfará a ideologia da burocracia, que não quer que nada mude. Se extinguirão os novos projetos que lançou o presidente.

Acabar com a burocracia antes que a burocracia acabe com a revolução é a palavra de ordem do dia. Se não destruímos o Estado burguês, construindo uma nova institucionalidade revolucionária apoiada nos movimentos sociais e no Poder Popular; se não mudamos a forma de governo derrotando a burocracia e impondo o verdadeiro controle operário e popular às ações de governo, que ao mesmo tempo têm que ser geridas pelo povo revolucionário e os trabalhadores; se não construímos um partido revolucionário democrático, com militantes apaixonados e quadros que possam desenvolver suas iniciativas revolucionárias; se toda iniciativa das massas é sufocada pelas correntes burocráticas, a revolução está perdida.

É hora de mudar. De iniciar o aprofundamento da revolução sem confundir o inimigo que abre a brecha a todos os demais inimigos. Se o povo vai governar não pode ser através da burocracia. Somente será contra a burocracia. Um novo impulso é necessário para salvar a revolução bolivariana. Um impulso antiburocrático e profundamente operário, popular e democrático. A burocracia é o pior inimigo da revolução. Para avançar é necessário derrotá-la.