Luciana Genro

Informe do VII Congresso do MST argentino

16 de dezembro de 2009 07h41

Entre os dias 10 e 13 de dezembro, realizou-se em Buenos Aires o VII Congresso do MST – Movimento Socialista dos Trabalhadores, partido de esquerda argentino que compõem o Reagrupamento e é aliado do PSOL (participa em todos os seminários e fóruns da Secretaria de Relações Internacionais de nosso partido). O evento teve um ato público de abertura, que contou com a participação de dirigentes do MST, lideranças sindicais e convidados internacionais.

Pelo MST, falaram Alejandro Bodart, coordenador nacional do partido), Vilma Rippol, liderança pública e ex-candidata a presidente, e o deputado Marcelo Parrili; dos convidados internacionais, fizeram uso da palavra Juan Garcia, da corrente Marea Socialista do PSUV/Venezuela, Anatoly Matvienko, do Comitê por um Partido Operário da Bielo-rússia, e a deputada federal Luciana Genro, da direção nacional do MES e do PSOL. Como expressão da renovação sindical que acontece hoje na Argentina, falou o companheiro Nestor Segovia, militante do MST e dirigente dos metroviários (Subte).

O ato contou com a assistência de cerca de 800 companheiros da Grande Buenos Aires e das províncias do interior. As falas apontaram no sentido de caracterizar a grave crise econômica pela qual passa o planeta, e das oportunidades que se abrem para que os socialistas de diferentes países possam estar se unindo. Luciana destacou o papel que o PSOL vem cumprindo na luta contra a corrupção no Brasil, levantando bandeiras que o PT deixou de lado para governar junto com Renan Calheiros e José Sarney. Também se reforçou a necessidade de construir uma ampla rede internacional de partidos de esquerda e socialistas.

A intervenção de Vilma destacou que os três principais pilares do modelo capitalista argentino estavam bastante desgastados: a luta contra a ditadura militar debilitou as terríveis estruturas das forças armadas (responsáveis pelo desaparecimento de cerca de 30 milpessoas); a luta do Argentinaço – rebelião popular que ocorreu em dezembro de 2001, desgastando o regime de bipartidarismo (onde o Partido Justicialista e o Partido Radical sempre se alternavam no poder) -; e que agora, com o reconhecimento dos delegados sindicais, democraticamente eleitos na base, da categoria metroviária (o metrô de Buenos Aires é um dos maiores do mundo, sendo central para a locomoção diária de centenas de milhares de argentinos) se abre a oportunidade de colocar em xeque a burocracia sindical. Ao final, se cantou o hino da Internacional, de forma comovente.

No dia seguinte, começaram os debates propriamente ditos. Uma discussão muito rica e politizada que girou em redor de temas como a situação internacional, a conjuntura nacional e a avaliação do desempenho do partido no último período. Sobre a situação internacional, o eixo do informe foi a avaliação acerca da crise mundial. A intervenção dos companheiros da Venezuela, que estavam numa delegação expressiva de oito militantes, apresentou o panorama delicado do atual momento naquele país: por um lado, o imperialismo busca avançar, respaldando as eleições fraudulentas em Honduras e inserindo bases militares por todo o continente; por outro lado, a própria burocracia que parasita o processo bolivariano, debilitando a luta por maiores conquistas. O presidente Hugo Chávez em recente discurso identificou a luta contra esses dois inimigos principais como o motor do processo de transformações estruturais na Venezuela. Em geral, toda militância destacou a importância de ampliar o reagrupamento internacional – entre os  partidos que editam a Revista América – com uma ênfase nos processos que países como Brasil, Argentina, Peru, Honduras e Venezuela vêm passando.

Nota-se que o PSOL tem muito respeito e admiração entre os quadros e militantes do MST. O companheiro Pedro Fuentes, nosso secretário de Relações Internacionais, que por motivos de saúde não pode ir ao congresso, foi referenciado. Nossa intervenção nesse ponto, com a fala de Israel Dutra em nome da direção do MES, destacou três aspectos: em primeiro lugar, a etapa aberta com a queda do muro de Berlin em 1989 tem um signo contraditório, uma vez que representou a possibilidade de superar o stalinismo também esteve marcada por um debilitamento estrutural da classe trabalhadora. Em segundo lugar, a necessidade de evitar o unilateralismo na análise, onde não se pode ter uma visão de que a crise mundial “já passou”, como expressam alguns analistas da burguesia, porém, sem cair numa visão catastrofista, de que o capitalismo está por desabar. Como conclusão de nossa contribuição, reforçamos a orientação de aproveitar oportunidades, sendo parte de movimentos reais, amplos, como, por exemplo, as frentes anti-imperialistas construídas junto com setores que não provem de nossa tradição. Nesse caso, é um movimento combinado: reforçar nossas fronteiras políticas, dando espaço para a construção de uma corrente revolucionária com quadros e, ao mesmo tempo, tendo a audácia de participar em unidade com amplos movimentos que nos levem a ter uma audiência diante do movimento de massas.