Luciana Genro

A crise econômica e a alternativa socialista

24 de novembro de 2009 09h16

A crise econômica e a construção da alternativa socialista

Escrevemos este texto sobre a atual crise econômica a apenas alguns dias do aniversário da queda do Muro de Berlim; um evento histórico inesquecível. Referindo-se ao mesmo, o historiador marxista inglês Eric Hobsbawm escreveu nesses dias: “Estritamente falando, a queda do Muro apenas demoliu a crença de que o socialismo de tipo soviético – era uma forma factível de socialismo”, embora logo agregue que “como foi à única tentativa de se realizar o socialismo, na prática seu fracasso desanimou os socialistas como um todo, apesar de que grande parte deles terem sido críticos do sistema soviético”.

Neste mesmo artigo o escritor de Era dos Extremos disse corretamente que “a queda do Muro significou a desestabilização da geopolítica mundial, em prol de uma única superpotência os EUA, por conseqüência o mundo se tornou mais instável e perigoso”. Ao tratar da crise econômica e financeira de um ano atrás Hobsbawm a define como “o Muro de Berlim do capitalismo”, e que “neste aparente revés do capitalismo há a possibilidade da rearticulação do pensamento de esquerda em bases mais realistas”.

Nesta breve reportagem Eric Hobsbawm introduziu questões fundamentais no âmbito deste debate para os revolucionários socialistas e que pode ser resumido, brevemente, em duas questões que trataremos de desenrolar se neste artigo. a) A magnitude da crise econômica e sua situação atual, se for como dizem a maioria dos economistas burgueses que já foi superada ou como opinam importantes economistas marxistas que a crise é mais global e seguirá se aprofundando através de novos episódios; b) a política dos revolucionários para a crise é construir uma alternativa socialista neste novo período histórico  que estamos marcado essencialmente pela crise.

A “recuperação”

Os economistas burgueses e muitos dos responsáveis por conduzir a economia dos países falam, com diferentes níveis de ânimo, que já começou a recuperação. No caso do nosso país, o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o próprio Lula se mostram eufóricos. Essa recuperação pode ser em “V”, como no caso de países como o Brasil, onde a recuperação é rápida, ou de “U”, uma recuperação anêmica, como no caso dos EUA e Europa, onde foi o epicentro da crise.

Seria insensato negar que, graças às fabulosas intervenções do Estado Keynesiano assumido pelos governos das metrópoles, a crise teve uma relativa contenção. Também seria insensato negar que muitas das grandes empresas – um setor considerável das grandes multinacionais em primeiro lugar – tem recuperado a taxa de lucro devido a reestruturações, fusões, ajustes e demissões. Isso é conseqüência de não haver um enfrentamento contundente aos capitalistas, apesar da resistência parcial da classe trabalhadora à crise. Embora em todos os casos, as maiores taxas de lucro são encontradas em os bancos no Brasil e nos EUA, em este país especialmente nos de investimento.

Estamos longe de ter uma visão da catastrofista e mecânica da economia mundial e da crise, mas nós rejeitamos a leitura absolutamente parcial e conjunturalista dos economistas burgueses. Os capitalistas tentam de transformá-la em uma verdade absoluta já que é seu fundamento essencial para restaurar a confiança no mercado e fazer funcionar o sistema. Mas há outros indicadores muito específicos das grandes dificuldades; por exemplo, os EUA, apesar de falar de um pequeno crescimento da economia, o desemprego continua a aumentar atingindo o mês passado uma cifra recorde.

A nova bolha segundo Roubini

É importante ouvir o que você acha que Nouriel Roubini, professor de economia na Universidade de Nova York. Roubini – um economista burguês que não se aproxima em nada do pensamento marxista – tornou-se famoso por prever a crise que eclodiu no ano passado, e alertar de forma sistemática sobre ela. Num artigo recente do jornal Financial Times (6/11/09) reproduzida na Folha de São Paulo, intitulada “Quanto maior a bolha atual, maior será o inevitável estouro”, Roubini explica que se criou uma nova bolha que seria a terceira após a da informática e das hipotecas. Uma nova bolha com que o capital está se reproduzindo em taxas elevadas. “..ao mesmo tempo em que a economia americana e global iniciaram uma recuperação modesta, desde março os preços dos ativos vêm subindo vertiginosamente, numa alta grande e sincronizada”.  Roubini observa que “os preços dos ativos de risco e vem subindo muito mais rápido quando comparados aos seus fundamentos”. “São os ativos de risco de todos os tipos -carry trades- participações, os preços do petróleo, energia e commodities, um estreitamento dois spreads de alto rendimento e de alta classificação e um aumento maior ainda nos mercados de ativos emergentes (ações, obrigações e moedas)”.

Se Roubini bem disse que a alta recuperação dos ativos de risco é, em parte impulsionada pela “melhora do ponto de vista econômico”, o que está por trás desse aumento maciço que alimenta a enorme bolha de ativos  é “um dólar americano fraco“. Como resultado, os “investidores” tomam empréstimos em dólares com juros muito baixos (empréstimos a juros negativos, que podem chegar a 10% ou 20% negativo ao ano), para comprar ativos de maior retorno e outros ativos globais. “Cada investidor que joga esse jogo de alto risco fica parecendo um gênio –mesmo que só navegue numa bolha imensa–, já que os retornos totais têm estado na faixa entre 50% e 70% desde março.” “Na prática, virou uma grande negociação comum – você compra o dólar para adquirir qualquer ativo de alto risco”.

Roubini prevê que “essa bolha vai estourar um dia, levando ao maior estouro coordenado de ativos já visto”. E ele dá vários motivos; seja porque o dólar não pode cair a zero, ou porque pode haver um vazamento solicitado pelos receios de uma recessão de toque, ou os riscos geopolíticos, como um choque dos EUA e Israel com o Irã. E conclui que: “Esse processo pode não ocorrer por algum tempo, já que o dinheiro fácil e a liquidez global excessiva ainda poderão elevar os ativos por algum tempo. (…) Mas, quanto mais se prolongarem e quanto mais crescer a bolha, maior o crash. O Fed e outros responsáveis pela política econômica parecem não ter consciência da bolha monstro que criam. Quanto mais tempo permanecerem cegos, mais dolorosa será a queda. ” (os destaques são nossos)

O Brasil é um dos pratos mais apetitosos deste capital fictício; vem aqui em grande quantidade, graças a altas taxas de juros -entre as mais altas do mundo-, e também porque o real está sobrevalorizado frente ao dólar. Mesmo a nossa economia aparecendo com indicadores positivos, o país é extremamente dependente do capital financeiro internacional dos quais esse fundos faz parte, além de sofrer uma grande hemorragia devido ao pagamento da dívida pública que consome mais de 30% do orçamento.

A tímida medida de taxar os fluxos de capital do Ministro da Fazenda não deu qualquer resultado. Esta situação apenas poderia ser resolvida com a redução drástica das taxas de juros e à aplicação de um rigoroso controle de câmbio e nacionalização do capital e depósitos. Mas o governo brasileiro não faz nada disso, ainda favorece os grandes banqueiros, as multinacionais e o agronegócio. Logo, o estouro da nova bolha vai se sentir no país acabando com a idéia de que o Brasil já está fora da crise.

O financeirização como parte de uma crise global do sistema

Essa análise aguda de Roubini confirma o que está sendo dito pelos mais sérios economistas marxista como Jorge Beinstein e François Chesnais, que consideram como algo inerente ou estrutural no declínio desta fase de acumulação capitalista, o primado da financeirização, ou seja, do capital especulativo.

A nova bolha que se formou na base deste aumento maciço dos ativos de risco, o que ilustra o amplo domínio da financeirização que permanece na fase atual do capitalismo imperialista. A prova disso foi a política do governo Obama que fez um forte investimento em salvar esses ativos “sujos”.

Contra aqueles que pensavam e pensam que esta era uma crise do neoliberalismo, e que era e é possível um capitalismo sem a “ciranda financeira”, a análise Roubini mostra que existe uma profunda crise da economia capitalista que não pode ser resolvida por medidas reformistas por se tratar de uma crise global.

Como há assinalado em várias ocasiões Chesnais citando Marx, “a acumulação capitalista, neste período de declínio vão criando mais contradições que fazem com que as crises sejam mais profundas e cada vez mais custosas.” As classes dominantes não podem voltar atrás e fazer reformas através dos mecanismos que o próprio capitalismo criou; ou seja que a financeirização é inerente à fase atual do sistema.

É preciso também acrescentar a crise ambiental. A falta de acordo entre as grandes potências para a cúpula climática de Copenhague mostra de maneira patética, como diante da uma perspectiva de aquecimento global prognosticada que pode chegar até seis graus, o capitalismo é incapaz de se auto-limitar ou se auto-controlar.

Essa leitura da crise é importante porque, enquanto o Brasil e outros países como a Índia e a China aparecendo como tendo superado a crise, eles fazem  parte de uma economia global cada vez mais globalizada e cada vez mais em crise. Mais cedo ou tarde, seja que a previsão de Roubini for cumprida, ou seja pelas próprias contradições e os desequilíbrios acumulados, o Brasil não vai escapar da crise.

Essa é uma leitura essencial que temos de fazer os militantes socialistas; não há nenhuma melhoria ou reforma possível a longo prazo ou a médio no Brasil ou em qualquer outro país. É por isso que temos entrado em um novo período mundial determinado por essa crise global. O que não faz mais que reafirmar a nossa política estratégica revolucionária e nosso programa.

A alternativa socialista

Esta crise fez com que o capitalismo perdesse a credibilidade com as massas. Ao mesmo tempo, os setores da vanguarda reafirmam corretamente que a única solução para a humanidade é o socialismo.

No entanto, há um perigo que se tornou realidade neste novo período mundial. Há setores desta vanguarda que converteram a política concreta em mera propaganda da atual crise do capitalismo e a saída socialista. Transformou em política o raciocínio correto de que a crise do capitalismo só tem saída com o socialismo e que só pode ser alcançado através de uma revolução.

Esta propaganda é muito necessária e correta a ser feita para a vanguarda, ou seja, para ganhar os melhores lutadores e assim reforçar o instrumento político para lutar pelo socialismo, em nosso caso o PSOL. No entanto, é um erro acreditar que é através da propaganda que podemos e ganhar as massas.
No início deste artigo, citamos Hobsbawm que falando sobre a queda do Muro de Berlim, talvez o acontecimento revolucionário mais contraditório que ocorreu no século XX, disse referindo-se a ele “como foi à única tentativa de se realizar o socialismo, na prática seu fracasso desanimou os socialistas como um todo”. Devemos acrescentar que, sendo a única tentativa ou modelo de socialismo que viram as massas, significou também que elas não tenham visto ou não vejam agora o socialismo como uma alternativa real e possível.

A queda do Muro facilitou o trabalho dos marxistas revolucionários para atingir as massas, porque liquidou os grandes aparelhos ao serviço do capitalismo controlados pelos Partidos Comunista. E, como dissemos antes, a crise econômica que começou há um ano – “o Muro de Berlim do capitalismo” – voltou a fortalecer a vanguarda no socialismo. Mas essa crise não significou ou nem vai significar que as massas pelos seus próprios meios avancem rumo ao socialismo. Elas nunca irão fazê-lo dessa maneira, como corretamente reiterou Nahuel Moreno, quando dizia que “o nível de consciência das massas avança através de suas próprias ações e experiências”. Conseguinte, a política dos revolucionários é buscar as consignas ou palavras de ordem apropriadas para responder ao nível de consciência e as necessidades específicas que elas têm colocadas, abrindo assim o caminho para a mobilização.

O enorme avanço que se deu nos últimos anos na América Latina tem sido através de manifestações poderosas que não foram feitas pelo socialismo, mas pela luta concreta anti-imperialista e democrática. Nos últimos meses temos visto uma grande mobilização popular em Honduras sobre as mesmas consignas democráticas: o retorno de Zelaya ao poder e à Assembléia Constituinte.

E onde a esquerda avançou não foi exatamente reivindicando o socialismo, mas intervindo nesses processos reais de luta anti-imperialista e democrática, que sem dúvida alguma tem um componente anti-capitalista.

Hoje em dia temos que somar como tarefa presente também a questão ecológica. Neste terreno, são corretas as formulações marxistas que deram origem ao eco socialismo que integra a luta ecológica à luta socialista como única alternativa possível para salvar o planeta. Mas ao mesmo tempo, essa estratégia socialista não pode negar a unidade de ação com todos os setores que em forma mais inconseqüente e inclusive dentro de um pensamento pró capitalista incluso falando do desenvolvimento sustentável, propõem medidas parciais que são progressivas frente à atual curso destrutivo. Negar a unidade de ação com estes setores seria o mesmo que negar a unidade e ou a frente única com reformistas o inclusive burocratas quando eles levantam reivindicações econômicas parciais.

O Brasil e nossa política

O Brasil é um dos países mais atrasados em termos de luta de classe do nosso continente. Não por coincidência, o presidente Lula está com quase 80% de aprovação. Mas, ao mesmo tempo não podemos esquecer que ele faz parte do mesmo todo Latino-americano e a mesma crise global mundial.

Isto levanta duas questões que estão ligadas. A primeira é que em nosso país, de nenhuma maneira podemos renunciar a abrir o caminho para as massas, que na realidade já estão abertos. Seria um crime e um retrocesso ficar em uma postura de espera com a nossa propaganda socialista. Não é por acaso que o PSOL conseguiu abrir este caminho. Não o fez com a propaganda socialista, reiterando que ela é fundamental para ganhar e reforçar a vanguarda; mas porque sabe se juntar às massas sendo um defensor de suas reivindicações mais urgentes e utilizando as rachaduras e fraquezas que se abriram no regime. Em concreto foi juntar a luta reivindicativa com a luta contra a corrupção que em nosso país é o maior fenda aberta e que é, sem dúvida, parte de uma luta mais geral contra o regime.

E a segunda é que, essa tarefa de alcançar e disputar setores massas de essa maneira nós fazemos com muita confiança, muita segurança, se temor de estarmos “capitulando ao regime”, porque precisamente acreditamos na nossa estratégia.

Porque sabemos que, como fazemos parte deste todo que é a América Latina a crise vai a chegar; o sistema vai perder mais credibilidade e as massas vão se mobilizar, com o que será aberta uma disputa mais clara, mas aberta por sua direção. Mas, sem dúvida, esta disputa só será possível se hoje, na situação atual de relativa passividade, formos capazes de sustentar e aprofundar o espaço que temos ganhado nas massas graças à política que defendemos para construir o PSOL.

Pedro Fuentes
Membro do Comitê Executivo e secretário de Relações Internacionais do PSOL