Luciana Genro

Rodolfo Mohr envia suas impressões de Honduras

09 de outubro de 2009 11h08

Tegucigalpa, 8 de outubro de 2009

A crise política de Honduras foi decisivamente transformada com o regresso ao país do presidente legítimo, Manuel Zelaya, abrigado na embaixada brasileira. Dentro desse cenario, um novo ânimo foi verificado no movimento de massas hondurenho, pois, depois de 90 dias de repressão cotidiana por parte do exército, de passeatas, perseguição, desaparecimento e assassinatos de diversos ativistas sociais, novas grandes concentrações foram verificadas. Somado a isso, o Estado de sítio, editado alguns dias após a chegada de Zelaya, cortou diversas garantias constitucionais, foi um duro golpe contra a resistência. Abriu caminho para o fechamento da rádio Globo e do Canal 36, os únicos que davam voz à resistência e com isso conseguiram cortar os principais meios de convocatória para as grandes marchas.

A Frente Nacional de Resistência ao Golpe de Estado é de fato e de direito reconhecida internacionalmente, inclusive, é um espaço de grande unidade para os enfrentamentos e com muitos dirigentes maduros e experientes. Todos os setores populares que lutam contra os golpistas identificam e fortalecem a Frente Nacional.

O início da mesa de diálogo ‘Guaymuras’ foi uma iniciativa do governo golpista por três razões:

– A primeira para tentar convencer a opinião pública de que estão abertos ao diálogo, uma semana depois de avançarem com a repressão através do Estado de sítio.
– A segunda é tentar construir um novo marco de discussão que deixe no passado o Plano Arias ou o Acordo de São José, firmado junto ao presidente da Costa Rica, José Arias, tendo como o primeiro ponto o regresso de Zelaya ao poder.
– Terceira é consumir todo o tempo que resta até as eleições, marcadas para 29 de novembro, e com um movimento paralelo buscar legitimidade internacional para as eleições. A Federação Industrial da América Latina já se pronunciou dizendo que reconhece as eleições.

A visita de chanceleres da OEA se tornou a principal agenda política como tentativa de saída para a crise, em que pese as suas dificuldades e de estar nos marcos do diálogo dos golpistas. Dentro dessa nova situação, Manuel Zelaya montou sua comissão de oito representates, com pelo menos dois grandes expoentes da resistência: Juan Barahona, presidente da Federação dos Trabalhadores de Honduras, e Carlos H. Reyes, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Bebidas (principal sindicato da resistência) e candidato independente para a Presidência. A comissao se tornou de apenas três, mas Barahona manteve-se junto a duas pessoas do governo de Zelaya. Esse foi um importante reconhecimento por parte de Zelaya da resistência também ser interlocutora política para a solução da crise e alçou internacionalmente o protagonismo da Frente de Resistência.

Além disso, Zelaya teve uma posição muito decidida e ousada. Denunciou, desde a embaixada brasileira, as manobras dos golpistas para seguirem com a ditadura civil-militar e seguiu com a pauta fundamental da Frente Nacional: a restituição de Zelaya para que legitime as eleições e se derrote o golpe e uma Assembleia Nacional Constituinte.

O governo anunciou paralelamente ao diálogo ‘Guaymuras’ o fim do decreto do Estado de sítio. Entretanto, no dia da veiculação no Diário Oficial, este não foi publicado de maneira extraordinária.

O ato que teve concentração em frente à embaixada dos EUA, na quarta-feira, 7, rumo à embaixada da Guatemala (onde estão 14 pessoas da Frente pedindo asilo político devido à perseguição dos militares) foi duramente reprimida. Havia mais de 3 mil pessoas. Bombas de gás lacrimogênio, balas de borracha e o cacetetes dispersaram os manifestantes na mesma manhã em que se iniciou o diálogo ‘Guaymuras’. A resistência está com uma agenda extensa em diversos bairros de Tegucigalpa. Panelaços, carreatas e outras iniciativas discutidas nas frente barriais da Frente Nacional de Resistência.

O diálogo ‘ Guaymuras’ não avançou em nada. Os golpistas não aceitam o primeiro ponto proposto pela OEA, que é o cumprimento do Acordo Arias. Sabem que a volta de Zelaya por um minuto ao poder em qualquer condição pode desencadear um processo irreversível de lutas populares. Essa intransigência até o momento mantém o isolamento internacional do governo golpista.

Nesta quinta-feira, 8, por volta das 11h, cerca de mil pessoas foram até o Hotel Clarion, onde ocorria o diálogo ‘Guaymuras’, e conseguiram furar o bloqueio midiático, manifestando sua indignação frente à imprensa mundial. Hoje, pelo menos na internet, muitos são os meios que já colocam mais peso em Barahona do que nos negociadores do governo.

Em 15 de outubro acaba o prazo que a comissão de Zelaya marcou como o término das negociações. Até o momento, essa comissão não abre mão da restituição de Zelaya e não dão sinais de que vão retroceder nesse ponto, bem pelo contrário. A OEA se foi de Honduras e não conseguiu produzir o avanço que milhões de hondurenhos esperavam.

As mobilizações seguem com força, mas descentralizadas nos bairros. Seguem também duas concentrações diárias. Uma na Universidade Pedagógica e outra em frente à embaixada dos EUA, que fica a três quadras da embaixada brasileira. O mais impressionante nesse processo, sem lugar a dúvida, é a tomada de consciência do povo hondurenho. Se discute política em toda a parte. Todo mundo. Não há ninguém que não fale das mesas de negociação, dos argumentos de Zelaya e Micheletti. Há também a consciência organizativa propiciada pela Frente Nacional que a cada dia mais adquire o papel de sujeito político, ainda mais com a participação de seu principal dirigente, Juan Barahona, como interlocutor frente à OEA e aos golpistas.

Rodolfo Mohr
DCE/Ufrgs
Diretório estadual PSOL/RS