Luciana Genro

Pedro Fuentes entrevista Juan Barahona

05 de outubro de 2009 12h00

Tegucigalpa, 2 de outubro de 2009

Crédito: Pedro Fuentes

Crédito: Pedro Fuentes

“Não temos prazo, estaremos contra o golpe até que estejam pelo último dia no poder.” Assim disse Juan Barahona numa entrevista realizada na sede do STYBIS, Sindicato dos Trabalhadores de Bebidas e Afins. Barahona é hoje o principal líder da resistência, junto com Carlos Reyes, presidente desse sindicato e também seu companheiro próximo e candidato independente nas últimas eleições. O fato de que Reyes esteja ferido e não possa participar ativamente faz com que Barahona seja a cabeça mais visível da resistência, sendo entrevistado nas rádios e requisitado pela imprensa e também por ativistas e militantes.

Ele tem 55 anos e iniciou sua militância em 1975, no movimento estudantil. Em 1977, ingressou no Partido Comunista. Militou lá até sua dissolução. Vale lembrar que o partido se auto-dissolveu depois da queda do Muro de Berlim. Mas uma grande parte dos quadros do PC hondurenho não parou sua militância, ficando apenas sem uma organização. Até que em 1995, com o encontro com militantes salvadorenhos da Tendência Revolucionária, fundaram a organização em Honduras. A TR se formou a partir da FMLN – Frente Farabundo Martí de Liberación Nacional em El Salvador quando este partido se transformou devido à assimilação eleitoral e ao oportunismo.

Juan Barahona não pára um minuto. Conseguiu fazer uma pausa para nos dar esta entrevista no STYBIS, que faz parte da FUT – Federação de Trabalhadores de Honduras, da qual é presidente. Além disso, preside o Sintraina, sindicato que foi desocupado há dois dias.

“O que perdemos nos 90 recuperamos nos 2000”

Barahona começou a entrevista nos falando de sua história e do Bloco Popular, que se formou em 2000 e que hoje tem sido fator decisivo na resistência. Essa frente formada pelo Bloco agrupa os sindicatos campesinos filiados à FUT, partidos e organizações de esquerda, entre elas a TR. O BP foi o motor das mobilizações que dominaram a década de 2000.

“Nos anos 90, a luta foi extremamente defensiva. No caso do nosso sindicato, Sintraina, encarregado da relação do governo com os campesinos, fomos despedidos em 93. Fizemos uma greve de fome em frente à embaixada gringa por 10 dias e a suspendemos numa negociação na qual nos prometiam reincorporação”, lembra. “A partir de 2000, a situação mudou. Desde então, a luta é contra o modelo neoliberal e o sistema. A partir deste ano, a FUT organiza o Bloco Popular, junto com organizações campesinas, professores e populares, e agora estamos nas ruas.” Com essa organização, se travaram grandes batalhas. Foram feitos bloqueios e greves. “No ano passado, o Bloco organizou uma greve em 17 de abril. Em maio, quatro fiscais do Estado iniciaram uma greve contra a corrupção. Foi um movimento exemplar, com o qual se acabou bloqueando todos os caminhões e praticamente parou o país.” Houve outra greve geral em agosto e outubro, com uma pauta de reivindicação de 12 pontos, que foram apresentados ao governo e negociados com Manuel Zelaya (Mel).

“A Frente Nacional da Resistência tem reunido a maioria da população”

“A Frente Nacional da Resistência é uma coordenação entre o Bloco Popular, a União Democrática, as centrais sindicais e o setor popular do Partido Liberal, que defende Mel. Aqui está reunida a maioria da população.”

“Honduras mudou completamente, e vamos tirar um resultado muito positivo de tudo isso; uma organização e uma grande experiência. Nesses dias de lutas, o nível de consciência se elevou muito mais que em cem aulas sobre a luta de classes. É um divisor de águas. É luta de classes; de uma lado o povo explorado, e do outro a burguesia, os grandes burgueses que dominam este país. Os mesmos liberais que estão na resistência os vêem assim. É muito fácil argumentar que é uma luta de pobres contra ricos, meter todos eles num só grupo.”

A atual conjuntura

“Estamos diante de uma conjuntura que é complicada. Enquanto a repressão continua, agora se fala de negociações. Nós somos a favor de participar como resistência das negociações, não fechamos o diálogo. Vemos que há rupturas dentro do regime. A viagem dos deputados do Brasil é importante, apoiando a presença de Zelaya em sua embaixada. Se vierem a OEA e a ONU, será bom. Até agora não fizeram nada porque jogam a favor do império. Esperamos que demonstrem empenho. Estamos a favor de participar das negociações, mas ao mesmo tempo dizemos aos golpistas que não temos prazo; estaremos nas ruas até o último dia em que estiverem no poder.”

“O futuro é nosso”

“Carlos Reyes é o candidato independente, da resistência e do movimento popular à presidência. Se participa ou não das eleições, é uma questão de se aceitar as condições e que seja com Zelaya no poder. De acordo com a situação, estudaremos o que fazer.”

“O futuro é nosso. Mais nada será igual em Honduras, e a disputa de poder se dará agora ou mais adiante. A resistência tem condições de organizar um movimento político social para lutar pelo poder.”

“Hoje, acabamos de receber uma grata notícia dos Estados Unidos. Nos informaram que os estivadores decidiram boicotar a descarga de produtos das maquilas daqui. É muito bom golpear os empresários. Se não fosse por eles e pela direita da América Latina, não existiria golpe de Estado em Honduras.”

“Nós seguimos organizando a resistência e continuamos nas ruas. Na quarta-feira fomos dispersados, mas hoje conseguimos sair de novo; marchamos desde a embaixada dos EUA, passamos pelo CORE, onde estão detidos os campesinos que foram retirados do INA, e terminamos no centro da cidade.”