Luciana Genro

Seminário Internacional declara solidariedade a lutas sociais na América Latina

18 de agosto de 2009 17h58
Crédito: Antônio Índio

Crédito: Antônio Índio

A solidariedade com o povo hondurenho, que sofreu recente golpe militar, e o combate à presença de forças militares norte-americanas na Colômbia foram alguns dos temas mais citados na abertura do Seminário Internacional do PSOL, na manhã desta terça-feira, 18, em São Paulo. Com o tema ‘Crise: respostas e iniciativas na América Latina e no mundo’, o evento contou com a presença de representantes de movimentos e partidos de esquerda de Bolívia, Peru e Colômbia e do presidente da Fundação Lauro Campos, Milton Temer.

O primeiro integrante da mesa a falar foi o dirigente do MAS – Movimento para o Socialismo, Sérgio Loyaza, representante da Bolívia. Ele deu um depoimento sobre a luta do povo indígena, que representa a origem social do presidente Evo Morales, e o temor sobre a organização das forças conservadoras que querem voltar ao poder no país. “Há uma direita que está conspirando contra o nosso governo. Temos derrotado as oligarquias na Bolívia, mas queremos que as forças indígenas e movimentos sociais se relacionem cada vez mais.”

Segundo Loyaza, o povo boliviano está consciente da mudança em curso. “Não marginalizamos ou excluímos ninguém. Nossa filosofia é manter o clima e o equilíbrio, não existe o conceito de exploração.”

Milton Temer destacou que os temas tratados no seminário não são de interesse da grande imprensa brasileira, que está aliada ao grande capital. Disse ainda que o PSOL apoia a reeleição de Evo Morales e se posiciona radicalmente contra a presença das forças militares na Colômbia. “A importância deste seminário é demonstrar solidariedade com os processos revolucionários da América Latina. A esquerda existe, a utopia existe, a força dos povos tem como se impor a força do capital.”

Sobre a Venezuela, de acordo com Temer, se há simpatia do governo Lula com Hugo Chávez, a motivação é mais econômica do que ideológica. “Há um superávit de US$ 5 bilhões em jogo.” Ele apontou que seminário deve elaborar um documento de desdobramentos sobre essas questões.

As resistências colombiana e peruana

Wilson Borja, que faz parte do Pólo Alternativo Democrático da Colômbia, também falou na abertura. Acredita que a América Latina está vivendo um momento difícil por conta da crise internacional, considerada por especialistas como uma quebra do modelo neoliberal, e que as táticas e soluções devem ser renovadas.

Sobre a presença das tropas norte-americanas no país, ele explicou que o presidente Álvaro Uribe é um representante dos latifundiários, além de ser responsável pelo assassinato de civis inocentes. “Pesam no nosso país algumas propostas que são difíceis de estudar para avançar na revolução na América do Sul.”

No Peru, a situação é semelhante. Quem falou a respeito na mesa foi a deputada do Partido Nacionalista Peruano, Janet Cajahuanca. “Temos combatido um sistema que realmente chegou com mentiras para governar. O presidente Alan Garcia tomou a bandeira nacionalista, anunciou mudanças e quando chegou ao governo, se colocou de joelhos diante do poder econômico.”

Ela lamentou a diminuição do grupo de oposição do Congresso Peruano de 43 parlamentares para 23, mas acredita que, apesar da redução, a luta pelas terras indígenas e contra o sistema neoliberal continua forte. Explicou que o povo se organizou a partir da conscientização sobre leis que prejudicavam o meio ambiente, que foram derrubadas. “Isso se conseguiu a com uma grande luta dos povos da Amazônia. Foi um grande exemplo para o modelo econômico neoliberal, algo muito grande que devolveu confiança ao povo.”

Ela concluiu dizendo que há políticos no Peru que estão exilados ou respondem processo, além de perseguição a dirigentes de sindicatos e grêmios. “Isso não nos tirou a vontade de modificar nossa pátria. Temos uma grande oportunidade em nossas mãos.”

Liberdade para Honduras

A resistência ao golpe militar em Honduras foi destaque nas palavras de ordem dos militantes e monopolizou parte dos discursos de todos os integrantes da mesa. O representante da Frente Resistência Honduras, Gilberto Rios, contou na abertura que há mais de 50 dias, mais de 100 mil pessoas estão marchando nas ruas diariamente. “Há dias em que chegamos a há quase meio milhão de pessoas em todo o território nacional. Essa mobilização nunca aconteceu em toda a história de Honduras.”

Ele explicou que o golpe de Estado tem dois componentes importantes: as oligarquias e a atuação direta da CIA, o que ajuda a entender o medo do capitalismo em relação às forças da esquerda revolucionária no continente. “A oligarquia hondurenha concentra 90% da economia e viu com muito temor a consulta popular proposta pelo presidente Manoel Zelaya. Mas o tamanho da oligarquia não é suficiente para impor um golpe de Estado.”

Por isso, ele afirmou que o planejamento, a execução e a direção do golpe têm a participação dos Estados Unidos. Relatou que agentes da ultra-direita do Partido Republicano dos EUA falam abertamente que quem está controlando o golpe de Estado em Honduras é a CIA. “Nós sabemos dessa presença em toda a América Latina, mas são eles que estão se encarregando diretamente do golpe, apesar de Honduras não ser tão representativa para a economia norte-americana.”

Programação

O Seminário seguiu até o início da tarde com uma mesa redonda sobre Crise Econômica Mundial. À tarde, a programação continua com debates sobre a luta imperialista e a solidariedade com Honduras e, à noite, com depoimentos sobre a Colômbia. Amanhã, 19, a programação abre com discussão sobre a ALBA e a Integração Latino-Americana e, à tarde, haverá debates sobre a Reorganização da Esquerda e Iniciativas Concretas.

Aletheia Vieira
Comitê de Imprensa do II Congresso do PSOL