Luciana Genro

Água limpa para todos

Desde maio deste ano a população de boa parte dos bairros de Porto Alegre convive com o mau cheiro e o gosto ruim da água que sai das torneiras e chuveiros. A água que bebemos e usamos para lavar as mãos, escovar os dentes, lavar roupas, tomar banho e limpar a louça está com aspecto de podridão e odor insuportável. E meses depois de detectar o problema, a prefeitura não conseguiu descobrir o que está acontecendo.

Não apenas não conseguiu descobrir, como chegou a declarar que é possível que nunca descubra. O diretor de tratamento e meio ambiente do Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE), Marcelo Gil Faccin, disse recentemente, em entrevista ao jornal Zero Hora, que talvez nunca se saiba a causa das alterações na nossa água.

Em 90 dias, o DMAE recebeu mais de mil reclamações sobre o problema. Até o Ministério Público, por meio da Promotoria do Meio Ambiente, teve que entrar em cena para acompanhar a situação.

A Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) também está patinando para resolver o caso. O órgão chegou a contratar um estudo de um laboratório de São Paulo para analisar 132 substâncias poluentes na água coletada, mas o laudo técnico verificou que todas estão em níveis inofensivos para o organismo. Agora outro estudo deve ser encomendado para examinar 500 substâncias.

A Fepam demorou quase três meses para tomar uma medida que já se colocava como óbvia para a população: a interdição das atividades da Cettraliq, uma empresa que trata os efluentes industriais de mais de 1,5 mil estabelecimentos comerciais e industriais e os despeja diretamente na Casa de Bombas do Trensurb — em um dos pontos mais poluídos do Guaíba, o Cais Navegantes, a menos de dois quilômetros do ponto de captação de água do DMAE.

Mas apenas a interdição temporária da Cettraliq não resolve o problema. A solução mais “instantânea” para o problema, elaborada pela prefeitura, pode ser concluída apenas no fim de 2020, isto se for levada adiante. Trata-se da mudança da estação de captação do cais Navegantes para o rio Jacuí, menos poluído que o Guaíba. Uma obra que custaria R$ 150 milhões e levaria 30 meses para ser concluída.

Ambientalistas apontam, com razão, que a mudança do local de coleta é um desvio do problema real: a poluição do Guaíba, que atingiu níveis alarmantes. O governo do Estado apenas agrava este cenário ao iniciar um movimento para permitir a extração de areia do lago, abrindo espaço a uma atividade com alto potencial poluente, que poderá revolver o solo do Guaíba e trazer metais pesados à superfície.

Apresentamos as seguintes propostas:

  • Porto Alegre deve estimular um esforço coletivo dos municípios da região metropolitana para desenvolver uma estratégia comum de combate à poluição e de manejo sustentável da água dos Jacuí, Taquari, Caí, dos Sinos e Gravataí, que deságuam no lago Guaíba.
  • A mudança de local de captação da água em Porto Alegre, do cais Navegantes para o rio Jacuí, é uma saída provisória, mas as indústrias poluentes, que despejam seus efluentes diariamente no Guaíba, é que devem arcar com os R$ 150 milhões necessários para o empreendimento.
  • Reforçar o trabalho de ligação dos esgotos cloacais das residências da cidade à rede de captação, essencial para atingir a capacidade de 80% de tratamento dos efluentes de Porto Alegre proporcionada pelo Programa Integrado Socioambiental (PISA), e antecipar a universalização do serviço, prevista pelo DMAE apenas para 2035.

Propostas para Porto Alegre