Dimensões site LG (32)
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| Artigos da Luciana | feminicídios | feminismo

O machismo nosso de cada dia, estrutural e naturalizado, se expressa principalmente nas definições dos papéis que cada gênero deve desempenhar. Coloque no Google ou em outro buscador as palavras Luciana Genro e carrinho de boneca e você verá várias matérias de 2016 sobre a repercussão de um post contando que meu sobrinho ganhou de mim (e adorou) um carrinho de boneca no dia das crianças. Na época, fui atacada e xingada, por homens e mulheres, por supostamente estar transformando meu sobrinho em gay. Rodrigo Constantino chegou a escrever um artigo intitulado “Uma infância feliz: ainda bem que não sou sobrinho de Luciana Genro!” “Viva os pais que não se curvam diante da pressão politicamente correta! Viva os pais que dão armas de brinquedo para seus filhos, em vez de bonecas e carrinhos rosas”, escreveu o cidadão de bem.[1]

Creio que nos dez anos que nos separam deste episódio avançamos um pouco na compreensão do absurdo desta colocação e por isto nem vou me deter nela. Mas ainda é muito presente a ideia de que a tarefa de cuidado, ou as tarefas ligadas à reprodução social (que envolvem administração da casa, comida, roupas, crianças, filhos, idosos ou doentes) são reservadas às mulheres. Por isto, um menino brincar de boneca o tornaria gay, pois isso não é “coisa de homem”. É o que eu chamo de “machismo nosso de cada dia”, reproduzido também por nós, mulheres. Quem não lembra de Damares e seu “meninos usam azul e meninas usam rosa”?

Esse comportamento machista, composto também por piadas, interrupções nas falas das mulheres, mansplanning etc. deságua (nem sempre, mas de forma muito frequente) em algo ainda mais nefasto e perigoso: a misoginia, ou seja, o ódio ou desprezo às mulheres.

Recentemente li, perplexa, as mensagens enviadas pelo Tenente Coronel que assassinou a esposa também policial: “Eu te trato como todo macho alfa trata sua esposa: com carinho e autoridade, como uma fêmea beta submissa, como toda mulher casada deve ser.”  Nesta mensagem, ele disse ainda que é “um rei, religioso, honesto, trabalhador, bonito.” Pois o religioso e honesto rei trabalhador matou a esposa e tentou fazer parecer que ela havia cometido suicídio.

A percepção de que a violência contra as mulheres vem aumentando não é só uma sensação derivada do aumento das denúncias, o que também aconteceu, felizmente. O Brasil teve recorde de feminicídios em 2025, com cerca de 1.568 mulheres assassinadas, um aumento de 4,7% em relação a 2024 e quando incluímos as tentativas esse crescimento é de 34% em 2025 em comparação com 2024.

Conforme estudo do Fórum Brasileiro de segurança pública, a série histórica, iniciada em 2015, ano da tipificação do feminicídio no Código Penal, mostra uma escalada persistente. Naquele ano, foram registrados 449 casos no país, número que mais que dobrou em 2016, com 929 vítimas, e continuou crescendo: 1.075 em 2017; 1.229 em 2018; 1.330 em 2019; 1.354 em 2020.

Após um leve recuo em 2021, com 1.347 ocorrências, os registros voltaram a subir: 1.455 em 2022; 1.475 em 2023; 1.492 em 2024; até alcançar o patamar recorde em 2025. Naquele ano foram 1.568 mulheres assassinadas em razão de sua condição de gênero. Aqui no Rio Grande do Sul estamos no 23º feminicídio do ano de 2026, com uma média de uma mulher assassinada por seus ex-maridos ou companheiros a cada pouco mais de 3 dias.

Esse aumento coincide também com o fenômeno político de crescimento da extrema direita e das ideologias fascistas, disfarçadas ou nem tanto.

Em Psicologia de massas do fascismo, Wilhem Reich explica que o papel da família, segundo a ideologia fascista, é funcionar como um tipo de “estado em miniatura”, uma mini ditadura na qual a mulher é rebaixada à função de reprodutora, esposa, mãe e “fêmea beta”, enquanto o homem é o “macho alfa” ou “rei”, nas palavras do já acima citado feminicida. Reich observa que o fascismo glorifica a maternidade como uma função de serviço ao Estado, confinando a mulher ao lar e retirando-a da vida pública e do trabalho produtivo. Como vemos, a atualidade da definição de Reich é desconcertante.

Nesta mesma trilha, Jason Stanley desenvolveu, em Como funciona o fascismo: a política do “nós e “eles”, a questão da importância da família patriarcal tradicional para a sociedade fascista, apontando que um dos elementos que caracteriza a ideologia fascista é a ideia de um “passado mítico puro” que foi tragicamente destruído. Esta “pureza” pode ser religiosa, racial, cultural ou levar em conta todas essas características, mas uma estrutura é comum a todas as mitificações fascistas: uma versão extrema da família patriarcal reina soberana. [2]

Recuperar este ideal de família, na qual a hierarquia reproduz a mesma lógica da sociedade, é o objetivo. A força e o poder do pai são equivalentes à força e ao poder do líder da nação, que provê seu povo da mesma forma que o pai é o provedor da família. “A autoridade do pai patriarcal deriva de sua força, e a força é o principal valor autoritário. Ao apresentar o passado da nação como um passado com uma estrutura familiar patriarcal, a política fascista conecta a nostalgia a uma estrutura autoritária hierárquica organizadora central, que encontra sua mais pura representação nessas normas.”[3]

Não casualmente os políticos de extrema direita são contrários a qualquer avanço em termos de igualdade de gênero. Embora a maioria deles não defenda explicitamente a prática de violência contra as mulheres, sua ideologia, em confronto com os avanços já conquistados e a recusa das mulheres em aceitar caladas a submissão e subserviência, fomenta o que hoje chamamos de “ressentimento de gênero”, mais um passo em direção à violência.

Este ressentimento está ligado à crise do capitalismo, que precariza as relações de trabalho, exigindo mais horas com menos ganhos financeiros e muita instabilidade. Claramente os homens vivem pior do que seus pais e já não conseguem ser os provedores tão valorizados pela ideologia patriarcal. As mulheres, por outro lado, embora também sejam vítimas da precarização e do trabalho em excesso, conquistaram algo que suas mães dificilmente tiveram: mais autonomia e direitos iguais, pelo menos na legislação, o que faz uma diferença gigantesca em relação ao “passado mítico” idealizado pelos fascistas.

Mas mesmo diante dos avanços conquistados pelas lutas feministas, os meninos ainda são socializados com a ideologia patriarcal, na qual ser homem significa ser forte e provedor. Isto lhe daria hierarquia superior na família, o direito de ser obedecido, de ver a mulher e os filhos como sua propriedade,  e de ter várias parceiras sexuais.

Por isso a ideia de que um menino possa brincar com um carrinho de boneca é tão enfurecedora. Na família patriarcal não há espaço para a divisão das tarefas domésticas, a maternidade é o ápice da realização feminina e o cuidado com a prole é tarefa exclusiva das mulheres. Ao pai cabe “bancar”, não cuidar. Mas, embora os meninos ainda sejam socializados assim, este papel está cada vez mais fracassado, seja pela crise econômica que não mais permite ao homem desempenhar esse papel de provedor, seja pela libertação das mulheres que não aceitam mais a submissão.

Este fracasso, resultado de um sistema falido, é apontado pelos movimentos masculinistas e “Red Pills” como responsabilidade das mulheres, que teriam avançado demais e gerado a sensação de perda dos privilégios masculinos, transformando o machismo em misoginia. Daí para o feminicídio é apenas mais um passo, geralmente dado por homens que, ao acreditarem tão piamente nesta ideologia, perdem totalmente a noção da realidade e desenvolvem um tipo de psicopatia violenta que os faz capaz de matar até os filhos para se vingar da mulher que se nega a ser submissa e lhe rouba o papel de “macho alfa”.

Podemos concluir, portanto, que a epidemia de feminicídios está diretamente relacionada à ideologia fascista da extrema direita. Ela transforma o machismo em misoginia ao enaltecer a violência como método de luta por um “passado mítico”, no qual as mulheres são subjugadas e confinadas a um papel que hoje já não aceitamos mais.


[1] Gazeta do Povo

[2] Stanley, Jason. Como funciona o fascismo: a política do “nós e “eles”. Porto Alegre: LPM, 2018. Pág. 19.

[3] Idem. Pág. 22