Em Charqueadas, a deputada estadual Luciana Genro (PSOL) participou do protesto contra o despejo da Mãe de Santo Ana Marta Alencastro da casa onde, além de residir, a líder religiosa mantém seu espaço de culto e realiza os seus ritos. O pedido de despejo teria sido apresentado por vizinhos que alegam incômodo com a circulação de frequentadores e com o que classificam de “barulho excessivo” durante as cerimônias. A situação não é inédita aos líderes religiosos da região, que já passaram por situações semelhantes.
“Não podemos naturalizar ou sequer aceitar que as práticas tradicionais das religiões de matriz africana sejam tratadas como incômodo ou desordem. O que está acontecendo aqui é, sim, intolerância e racismo religioso”, lamentou a parlamentar. “Quando o toque do tambor de um terreiro é chamado de ‘barulho’, estamos diante de uma tentativa de silenciar uma cultura e uma fé historicamente perseguidas”, afirmou.
Luciana Genro ainda destacou aos mais de 100 presentes no evento que, em articulação com Defensoria Pública do Estado e a Defensoria da União, foi assegurada a publicação de um documento oficial, no qual consta que as religiões de matriz africana devem ter o direito de realizar os seus rituais com liberdade e respeito garantidos, sem qualquer perseguição ou interrupções por conta dos sons sagrados.
O documento também reconhece que o toque dos tambores, elemento essencial das cerimônias, não pode ser interrompido nem interpretado como perturbação sonora. “O tambor é parte central do rito religioso das religiões de matriz africana e está protegido pela liberdade de culto garantida na Constituição. Não se trata de ruído, mas de expressão cultural e espiritual. Nosso papel é garantir que esses direitos sejam respeitados”, declarou.
Durante o ato, Mãe Ana Marta Alencastro afirmou que o espaço é, antes de tudo, um lugar de acolhimento espiritual e comunitário. A sacerdotisa destacou que se sente injustiçada ao ver sua prática religiosa ser tratada como incômodo. “O que dói é perceber que a nossa fé ainda é vista com preconceito. Nós não fazemos mal a ninguém. Pelo contrário, acolhemos quem precisa de ajuda, de palavra, de alimento, de orientação. Só queremos o direito de existir e praticar nossa religião com respeito”, lamentou.
O caso segue mobilizando a comunidade local e entidades de defesa dos direitos humanos que buscam alternativas jurídicas e políticas para impedir o despejo e garantir que Mãe Ana Marta Alencastro possa permanecer no imóvel onde vive e exerce sua liderança religiosa. Luciana Genro também garantiu que seguirá acompanhando o caso trabalhado para impedir a saída de Mãe de Santo do seu espaço sagrado. “Seguiremos mobilizados para que a Mãe Ana Marta possa continuar exercendo sua fé sem sofrer discriminação”, garantiu a deputada.