A gravidade da crise de saúde mental enfrentada pelos trabalhadores da segurança pública foi tratado em uma palestra promovida pelo mandato da deputada Luciana Genro (PSOL), em parceria com as entidades da segurança, ministrada pelo renomado psicanalista e professor da USP Christian Dunker. A deputada federal Fernanda Melchionna (PSOL) também esteve presente. Trazendo para o centro do debate o “Adoecimento psíquico dos trabalhadores da segurança pública”, o evento reuniu profissionais da área da segurança, como também da psicologia e estudantes.
“A política de segurança pública fomentada pelos governos é, em geral, a política do ódio e da repressão, levando o trabalhador ao adoecimento. Se essa política adoece o próprio trabalhador que a executa, obviamente ela também não serve para a população. Não podemos normalizar um cenário onde os índices de suicídio superam os de mortes em serviço,” denunciou a deputada, que tem sido procurada por diversos profissionais da área que relatam essas dificuldades.
Coordenadora da Frente Parlamentar em defesa dos Brigadianos de Nível Médio, ilustrou a problemática pontuando que entre janeiro de 2018 e dezembro de 2024, registraram-se 67 suicídios entre brigadianos, enquanto 27 servidores perderam a vida em confrontos durante o serviço. Já na Polícia Penal, apenas entre novembro de 2023 e dezembro de 2024, foram 6 suicídios e 570 afastamentos psiquiátricos.
Lideranças sindicais das entidades que se somaram na organização do evento– Abamf, Sindppen-RS, Ugeirm, Abergs, Aofergs, Asasepode, SindiPerícias e Acrigs – denunciaram que os trabalhadores da segurança, especialmente brigadianos e policiais penais, enfrentam um cenário alarmante de perseguições, assédio moral, escalas abusivas e sobrecarga de trabalho, além da falta de condições básicas, como uniformes adequados e locais apropriados para descanso. Essa realidade tem levado a um grave quadro de adoecimento mental quase generalizado resultando, muitas vezes, em suicídio.

Christian Dunker contou experiências de pesquisa com batalhões e destaca que existe um tabu de que o policial não pode sofrer, tendo o seu sofrimento psíquico interpretado como um problema individual, pessoal e direto, contrariando a moralidade discursiva da corporação. O psicanalista destacou como a falta de reconhecimento, as jornadas exaustivas e a violência cotidiana geram um impacto devastador na saúde mental desses trabalhadores. Para ele é clara a ligação dos sofrimentos vividos por esses profissionais na prática da sua vida laboral, com os sintomas de adoecimento mental.
“Culpa e vergonha são o resultado desse discurso. Você se sente impotente, você se sente incapaz, porque a sua insuficiência não é percebida como um problema estrutural ou como parte da vida que está imposta a você: se atua como corporação, se trabalha no coletivo, mas na hora de sofrer é só você. É vergonhoso que até hoje a gente, enquanto sociedade, não se responsabilize pelo suporte psicológico às pessoas que desenvolvem esse trabalho. É uma pauta urgente, é uma forma de cuidar dos nossos policiais. Aquele que não aprende a cuidar e ser cuidado, o que fará com o outro?” analisou.
Luciana Genro ainda apontou a omissão do governo estadual diante dos sucessivos alertas sobre o adoecimento psíquico na segurança pública. “O que vimos aqui hoje foi o retrato de uma categoria adoecida pelo descaso das autoridades. Os números são alarmantes, mas as autoridades insistem em ignorar o problema. Já passou da hora de medidas concretas serem adotadas para garantir assistência psicológica, melhores condições de trabalho e o fim do assédio institucional que muitos enfrentam”, finalizou. Foi a partir dessa preocupação que a deputada já destinou R$400 mil em emendas parlamentares para o cuidado da saúde mental dos brigadianos.